sexta-feira, 21 de março de 2014

A dramatização midiática da miséria e a apatia do evangelicalismo

Desenho de Didi Helene para o projeto 100 vezes Claúdia




Regido por cordas sujas de sangue, o nosso mundo jaz no maligno. Construímos uma gramática particular da desigualdade com a qual forjamos em um panorama capitalista tardio estilos de vida conformadores do ser e do viver em caixas formadoras de (a)sujeitos.

Através destas caixas, legitimamos o acesso desigual aos bens de direito de toda humanidade. Tecemos fios que constituem divisões grupais universais, as quais são responsáveis pela separação e união de pessoas em estruturas hierarquizadoras, a partir de gostos, marcas, atos e manifestações culturais diversas. Dividimos o mundo entre aqueles que são “nós” e aqueles que são “eles”. A dicotomia “Eu e Outros” nos governa.

E nesta dança, a música que faz balançar as nossas ancas nos liga em solidariedades segregadoras. Solidariedades que regem quais dos transeuntes deste mundo merecem um nome e quais surgem proibidos de usufruir de um. Constitui-se então a lei sob os corpos, lei que traz duas medidas. Aos que tem nome, a possibilidade da vida visível, do alcance, da vida que não só é vívida, mas é desfrutada; estes andam em carros, tem família, são alvos, são príncipes, são cegos. Aos outros, apenas a vida que é vivida e o corpo indigno de sacrifício, porque já é matável e ao desconhecido pertencem como consagração do mundo que jaz no maligno em profanação da imagem de Deus; estes andam a pé ou de ônibus, estes sucumbem ao crime de serem apenas sobreviventes, estes também são os marginais, são negros, são perdidos.

Cláudia e também Amarildo estão entre este grupo, eram anônimos, por tempos foram anônimos, mas ganharam nomes e assim a suas mortes tornaram-se consagração, dramatização midiática da miséria. Se sente a morte daquele que morreu em uma unidade de polícia pacificadora, sente-se a morte da mãe de quatro filhos e quatro sobrinhos, que trabalhadora que era, sustentava a todos. Sacraliza-se o sistema na profanação de vidas, anônimos se tornam mártires manipuláveis e apaziguadores de ânimos.

Suas figuras, como tantas outras, ao serem lembradas como fantasmas da consagração ao mundo que jaz no maligno, sua morte, como tantas outras, ao serem lembradas como um grito fúnebre para universalidade da justiça e mudança no mundo, serão jogadas no limbo. Apenas a dor importa, pois ela emociona e produz inércia, quando bem manipulada.

E evangelicalismo? Uma vergonha. Leva no nome o ímpeto de falar das boas-novas, a pregação do reino e do amor do Rei Eterno, do transformar dor em consolo e assim produzir mudança. Mas mantém-se apático, febril e delirante, seduzido pela possibilidade de ter nomes, de ser branco, de ser grande, de ser próspero, não deseja ser perseguido, oprimido ou ajudador dos fantasmas que cercam os castelos sociais e econômicos. Deus, ao se fazer carne, não veio entre aqueles que usufruiriam de um nome, ele foi como Cláudia e Amarildo, simples sobrevivente. Nesta condição, cumpriu sua missão, mostrou-se como Deus, messias, redentor e escreveu seu nome na história. Hoje, a igreja carrega seu legado, como noiva esperando seu amado. Mas, o que fazemos com isso?

Insistimos na loucura e deixamos a luz apagar, vemos a consagração dos doentes, dos miseráveis, dos loucos, dos marginalizados ao mundo que jaz no maligno e a estes negamos o pão da vida, deixamos de ir onde o Cristo foi. O evangelho precisa renascer, como fome de justiça e distribuição de misericórdia, pois em muitos espaços aparenta estar morto.


Este artigo não é para arrancar lágrimas dos olhos, mas para fazer pensar. Deus delegou aos seus a missão de mostrar que existe uma flexão para a palavra esperança, que ela não é estática, mas pode ser conjugada em ação. Sendo assim, se você, cristão, ainda não faz nada para que a profanação da imagem de Deus se atenue e a sua luz resplandeça como saída ao inominados deste mundo, bem, esta é a hora.

Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado. Tiago4:17