sexta-feira, 14 de março de 2014

Um Cristão deve Apenas Ouvir Música Religiosa?



Música é um assunto que sempre dá pano para manga quando se considera o âmbito da igreja. Tradicionalmente, o evangelicalismo brasileiro, em sua dualidade exacerbada entre o profano e o sagrado, acaba por aplicar um julgamento que manifesta esta dualidade definido muito bem pela clara frase "um cristão não deve escutar músicas do mundo".

Esta argumentação está sendo repensada pela nova geração e tentando contribuir para esta reflexão, este artigo se propõe a pensa a seguinte frase: Será mesmo que um cristão deve apenas ouvir música religiosa?

Como falado em outro artigo, seres humanos são seres que habitam um mundo, que literalmente estão em um mundo e que não são chamado para sair dele, mas para afastarem-se do mal e revelar em suas vidas a graça de Jesus. Desenvolvendo este pensamento, podemos dizer que habitar um mundo é habitar todo um cosmos de vida e de relações que nos definem como seres sociais, isto inclui uma série de aspectos e um deles é a música.

Como diz kroeber, citado por Laraia (2001), a cultura determina o comportamento do homem, sua capacidade artística e profissional e ainda se apresenta como um processo cumulativo que limita ou amplia a capacidade criativa humana. Nossa vida é pura cultura de certo modo.

A música se apresenta como uma manifestação cultural humana de cunho estético e contemplativo, a partir dela flui-se sentimentos plurais que comunicam a partir de um sistema organizativo dos sons particular uma linguagem que pode vir a transcender a linguagem escrita ou oral. A música é ilimitada no que toca ao que se pode comunicar. 

Então, podemos perguntar: por qual razão limitá-la ao âmbito religioso? Pecamos ao ouvir algo que não é de autoria de um cristão e/ou que não tem como motivo a adoração? Isso ocorre porque maculamos o sagrado- nossa vida resgatada por Deus- com algo que aparentemente não tem como centro este  sagrado, portanto pecamos porque fazemos uso e gostamos do uso do que é profano ?

Se este for o motivo, então temos que repensar nossos outros atos, afinal, utilizamos do mundo do profano, usufruímos prazeres que pertencem a esta esfera da existência, comemos em restaurantes, consumimos doces e guloseimas, usamos roupas e nos divertimos com filmes, parques de diversões e livros diversos. Usufruímos do banal e o banal é profano em natureza, pois pertence ao mundo social, aquele que é inerente aos homens. Desta forma, se ouvir uma música secular é pecar porque profanamos nossa salvação e a colocamos na berlinda, penso que fazemos isso com o resto das coisas também e o engraçado é que isso não incomoda. 

Em poucas palavras, o que levanto aqui é que o usufruto de uma música que não é cristã é possível ao cristão, assim como todas as coisas também o são. Utilizamos de bens muito mais nocivos ao nosso corpo e a nossa consciência do que o prazer de uma boa música secular. Nós sustentamos um mundo que em sua totalidade estrutural fere os princípios dos mandamentos de Deus. 

Inseridos até o pescoço no capitalismo, nós sustentamos a exploração do próximo -portanto, não manifestamos por ele verdadeiro amor- e elegemos o consumo como Senhor de nossas vidas- um exemplo disso é quando preferimos comprar na cantina da igreja do que dar o mesmo valor de oferta; ou seja, trocamos o dar pelo movimento de troca e instauramos na nossa relação com Deus e com as coisas dele o escambo das bençãos. 

Sendo assim, se for para condenar o ouvir música secular e restringir os ouvidos aos "louvores" que se condene também o consumo, o cinema, o shopping, o restaurante e todo o resto que faz parte do mundo da vida que nos envolve, que todo crente acampe dentro da igreja e nunca mais saia de lá. Se pecamos por ouvir uma música de Caetano Veloso, Iron Maiden ou  Villa Lobos, quem dirá ao consumirmos aquele produto que tem na marquinha a frase "made in China", país no qual trabalhadores são explorados em uma espécie de pseudocomunismo.

Se tornamos coisas banais pecados e não olhamos para coisas que de fato são pecados e estão instaurados no sistema em que vivemos, nos alienamos da própria condição da salvação e acabamos por colocar todo crente no inferno, invalidamos a graça de Deus diante de coisas menores. 

Enfim, precisamos é seguir o conselho de Salomão no livro de Eclesiastes e entendermos que 
Já tenho entendido que não há coisa melhor para eles do que alegrar-se e fazer bem na sua vida; E também que todo o homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus [...] Assim que tenho visto que não há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua porção; pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele?Eclesiastes, Capítulo 03. Versos, 12- 13- 22
 
Sendo assim, haja em nossos coração alegria e prazer, inclusive escutando uma música de não tenha como motivo a adoração, que façamos no agrado de Deus e que Ele próprio, através do seu amor, da sua comunhão conosco e da sua Santa Palavra.

E só para não deixar passar, aqui está uma música secular que muito me agrada. 



Referência Bibliográfica: LARAIA, Roque de Barros, Cultura: um conceito antropológico 14. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001