terça-feira, 30 de setembro de 2014

Cristianismo & Consumismo




Isaías 55.2- Por que gastar dinheiro naquilo que não é pão e o seu trabalho árduo naquilo que não satisfaz? Escutem, escutem-me e comam o que é bom, e a alma de vocês se deliciará na mais fina refeição.

Provérbios 30. 15a- A sanguessuga tem duas filhas: Dá e Dá.

Eclesiastes 2. 10-11: Não me neguei nada que os meus olhos desejaram não me recusei a dar prazer algum ao meu coração. Na verdade, eu me alegrei em todo o meu coração, essa foi a recompensa do meu esforço. Contudo, quando avaliei tudo o que tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há qualquer proveito no que se faz debaixo do sol.

Eclesiastes 2. 26: Ao homem que o agrada, Deus recompensa com sabedoria, o conhecimento e felicidade Quanto ao pecador, Deus o encarrega de ajuntar e armazenar riquezas para entregá-las a quem o agrada. Isso também é inútil, é correr atrás do vento.


Não dá para falar em existência sem usufruto. A própria essência do ser, nos leva a tal condição. O ser humano é um ser de necessidades e desejos, ambas as caraterísticas nos levam ao estado do usufruto, que é motor para a sensação de completude e gozo, seja físico, social ou psicológico. E não há nada de errado nisso.

Mas, com o advento das revoluções industriais e burguesa e o estabelecimento do capitalismo como sistema econômico predominante, o consumismo surge no lugar do usufruto e por intermédio do capitalismo, como fala um filósofo chamado Giorgio Agamben, a esfera do consumo surge e tudo que é produzido, feito e vivido é colocado dentro dessa esfera e o uso destas coisas se torna duravelmente impossível, pois,
 “O consumo, mesmo no ato do seu exercício, sempre é já passado ou futuro e, como tal, não se pode dizer que exista naturalmente, mas apenas na memória ou na expectativa. Portanto, ele não pode ter sido a não ser no instante do seu desaparecimento." ( AGAMBEN, 2007, p 64).

O efêmero e o transitório se tornam o princípio que regem a existência, tal processo insere nossas vidas no que o sociólogo Bauman (2008) chama de sociedade de consumidores, onde nossas relações humanas seguem os mesmos padrões existentes entre consumidores e objetos de consumo, ou seja, primeiramente somos postos à vista ( à venda) e nosso fim é sermos consumidos, mas para que isso ocorra é necessário que possamos satisfazer o desejo de quem nos consome e o nosso preço final será devidamente proporcional a credibilidade de nossa capacidade de satisfação e a intensidade do desejo daquele que nos consome. Portanto, nos nossos dias, somos ao mesmo tempo promotores de mercadorias e as mercadorias que promovemos.

Na sociedade de consumidores, ainda nos diz Bauman, ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria e ninguém pode se manter seguro, sem ressuscitar e carregar de maneira perpétua as capacidades esperadas e exigidas de uma mercadoria vendável. O próprio eu do sujeito e tudo que ele pode atingir, concentra-se num esforço sem fim para se tornar e permanecer uma mercadoria vendável. A característica mais proeminente da sociedade de consumidores – ainda que cuidadosamente disfarçada e encoberta- é a transformação dos consumidores em mercadorias, ou antes, sua dissolução no mar de mercadorias.

O objetivo dos consumidores e sua motivação estimuladora para se engajar na incessante atividade de consumo é sair da invisibilidade do mar de mercadorias, destacando-se da massa de objetos indistinguíveis. O que se quer com o consumismo, portanto, não é nada mais, nada menos, do que ser desejado e isto significa ser uma mercadoria atraente.

Aqui chegamos ao ponto crucial, capaz de fazer o trânsito entre sociologia e cristianismo: consumismo está ligado a vaidade e é talvez a face capitalista desse pecado, temperado com um quê de luxuria expresso no desejo erótico de ser desejado e ser objeto de consumo de outros, quiça de todos. Mas a profundidade da devassidão encontrada no consumismo não para por ai, pois no desejo pervertido está também a impossibilidade da duração, a exigência da perfeição e por fim o descompromisso com o próprio ser.

Em uma sociedade de consumistas não se espera que consumidores jurem lealdade aos objetos que são destinados ao seu consumo, o que nos remonta a ideia já exposta do filósofo Agamben e nos permite dizer que não somos viciados no ter, mas na capacidade do ter, na ação do ter, na fugaz sensação de poder ter. Algo que logo se acaba quando temos e percebemos que o que temos não é perfeito, o que faz com que nos movamos para a próxima compra em um ritmo frenético e incessante.

Mas como já dito, em um mundo de consumo, não apenas bens e serviços são produtos, mas também seres humanos e a estes as mesmas lógicas são aplicáveis, o que significa dizer que a deslealdade destinada aos objetos de consumo quando aplicadas ao contexto das relações humanas transformam o atar e desatar de vínculos em ações destituídas de moral significativa, o que garante isenção de responsabilidade das pessoas envolvidas na criação de relacionamentos bons e duradouros, os quais para existir sempre necessitam em suas receitas de empatia e auto sacrifício.

Portanto a questão é bastante simples, o consumismo, que é vaidade, também envolve em seu bojo a sede doentia por prazer desenfreado, ou seja, o hedonismo. A todo momento buscamos a felicidade e o gozo na falta, na nossa vaidade o que leva necessariamente ao afastamento de Deus e a produção de ídolos efêmeros e a idolatria do próprio ego, como também violência para com o próximo.

Na Bíblia encontramos bem clara a ideia motora do consumismo, que é o pecado, mas também encontramos a solução, que é um relacionamento sincero com Deus. Sabemos a partir do que é dito em Provérbios 30. 15 que não há limites para a ambição humana, que esta é insaciável, temos a certeza que mesmo que venhamos a conceder tudo aquilo que nosso egoísmo e ambição vier a desejar isso nada passará do que inutilidade, uma corrida atrás do vento, da qual não se tira proveito nenhum, como bem nos fala o discurso do sábio em Eclesiastes 2. 10-11, o que nos leva a concordar com Isaías no capítulo 55 e verso 2 de seu livro e fazer de sua pergunta uma afirmação: gastamos dinheiro naquilo que não é pão e gastamos nosso trabalho nas mais diversas coisas que verdadeiramente não nos trazem satisfação.

Qual seria a saída diante de um contexto aparentemente tão trágico? A própria Escritura nos dá a saída em diversas passagens, mas dentre muitas, gostaria de selecionar duas, iniciando a argumentação a partir do capítulo 55 de Isaías e do verso 1. Neste capítulo, encontramos um apelo e uma certeza de salvação, a figura do banquete é usada como metáfora para esta oportunidade, o verso 2, em sua primeira parte chama a atenção do povo para que este tome consciência de que vive sem prestar atenção no verdadeiro pão, ou seja, se importando com o que é efêmero; a segunda parte do verso revela que a mensagem de salvação é o pão, o que dá vida, o que é bom e importante, neste sentido, a aplicação não poderia ser outra, o remédio para a vaidade e o vazio de uma vida que gasta com o banal é a salvação oferecida por Deus, única condição que concede alegria plena, paz profunda e gozo eterno.

Se arrepender e abraçar a salvação de Deus nos eleva a outro nível de relacionamento que nos tira da lógica da sociedade de consumo e nos faz perceber que pessoas não são mercadorias, mas sujeitos que devemos amar e respeitar, nossos vínculos acabam por receber um novo sentido e começam a ser tecidos a partir dos padrões do vínculo salvífico que Deus teceu conosco, a durabilidade torna-se prioridade, o que insere novamente na equação o autosacrifício e a empatia. Para combater a lógica do consumismo e as suas raízes maléficas somos convidados a por em prática o princípio da graça, devemos amar a Deus acima de todas as coisas e amar o nosso próximo como nos amamos e isso é agradável aos olhos do Senhor.


Por fim, quando nossa consciência convertida inclina nosso ímpeto a vontade de Deus, Este nos garante a certeza e a concretização daquilo que os indivíduos imersos em um contexto de consumismo e vaidade tanto buscam de maneira errônea, Deus nos garante prazer, conhecimento, sabedoria e felicidade, pois a capacidade de apreciar tais coisas e de gozar a vida não está em nossas mãos, mas provém unicamente da graça de Deus.

Referências

AGAMBEN, Giorgio. Profanações. Rio de Janeiro: Boitempo, 2007
BAUMAN, Zigman. Vida para o Consumo. Rio de Janeiro: Zahar, 2008