quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A Bíblia como Artefato Artístico

Estamos de volta com os posts e para abrir a nova temporada, falaremos de arte e cristianismo, uma temática que sempre dá bastante pano para manga e que também será assunto de discussão para o 2º Encontro Refletindo a Graça, que ocorrerá no dia 12 de setembro na Comunidade Cristã Extrema Unção, logo, logo, teremos mais informações por aqui, agora sem mais delongas, vamos ao que interessa!




A arte é parte daquilo que nos torna sujeitos culturais. Toda sociedade apresenta em sua história manifestações artísticas ricas, inclusive ligadas as práticas e reflexões religiosas. A arte transita entre o divino e o mundano, entre o sagrado e o profano, entre o culto e a profanação.

Apesar da dificuldade de definir o que de fato é arte, ela sempre se mostra presente na nossas experiências. Muitas correntes intelectuais têm estudado este fenômeno humano e concluído o quanto falar em arte e sobre arte é complexo.

Um sociólogo, chamado Pedro Peixoto Ferreira, em seu blog resolveu fazer uma síntese de alguns verbetes sobre o conceito de arte em prol de elucidar um pouco como este fenômeno é abordado pela sociologia, durante sua discussão ele diz que a arte é uma espécie de sistema que apresenta

sinais-símbolos com várias dimensões, veiculados por uma base material (pintura, escultura) ou corporal (dança) ou sonora (música) ou por várias combinações delas (teatro, ópera, multimídia). assim suas características essenciais são: 
    a) o predomínio que nele subsiste do componente expressivo, em relação aos componentes instrumentais e cognitivos;
    b) a atitude de estabelecer por si as regras da própria coerência interna, isto é, da própria sintaxe;
    c) e, sobretudo, uma inesgotável ambiguidade do ponto de vista genético, semântico e pragmático
A arte portanto é bastante dinâmica, possui uma espécie de estrutura interna, uma coerência que guia a manifestação em particular, além disso ela predominantemente expressa ao invés de se preocupar apenas com a instrumentalização de um tema apenas e por fim, apresenta uma constante e inesgotável fonte de significados que eclodem e se renovam com o tempo e através das subjetividades que a apreciam. A arte é um  fenômeno socialmente vivo.

Talvez seja difícil e bastante pretensioso tomar a Bíblia e tentar enquadrá-la nestes padrões afim de chamá-la de artefato artístico, no entanto, acredito que vale o esforço e por isso me atrevo a escrever sobre isso, pois ao colocar a Bíblia não só como o livro da revelação (como se isso fosse pouco) ou um livro de sabedoria, mas também como produto de arte, acredito que a relação entre o cristão e as mais diversas manifestações da arte possa ser de algum modo menos confusa.

Assim, a pergunta que podemos nos fazer é: A Bíblia é uma obra artística? Ela é um sistema de sinais-símbolos? Minha humilde resposta para tal pergunta é SIM. Vejamos por quais razões:

a) A Bíblia como meio de Expressão 

O primeiro ponto que se deve ter em mente é que para além de um manual de ensinamentos, a Bíblia é um recorte de subjetividades que experimentaram Deus e foram inspiradas por seu Espírito. A Bíblia é constituída pela história da salvação e pela revelação do ser de Deus, nas entrelinhas, estes elementos apontam para uma característica comum entre a arte a Bíblia: a capacidade de ambas de lidar com aquilo que a racionalidade não pode lidar de maneira satisfatória, a irracionalidade, tanto das sensações, sentimentos, quanto do que é transcendente. No caso da Bíblia isso fica muito claro no uso poético do antropomorfismo para fazer entendível o ser de Deus ( Nm. 6.24/ Êxodo 20.5/ Salmos 34.15)

b) A Bíblia detém uma coerência interna e multidimensional

O segundo ponto no qual podemos nos ancorar para dizer que Bíblia possui características de um artefato artístico é sua coerência interna, primeiramente isto se encontra na costura lógico-teológica que nela podemos perceber, ou seja, apesar de ser um compilado de livros escritos por diversos autores humanos em diferentes épocas e que sofreram diversas influências culturais, encontramos em suas páginas a noção de obra única que se encaixa a partir de um único espírito criativo, em outras palavras, as aparentes contradições existentes não ferem a lógica interna da obra. Além disso, em termos formais, gramaticais e literários a Bíblia também inova estabelecendo novos padrões literários- os evangelhos são um exemplo disso, até sua escrita não existia nada igual ao que foi feito- e ressignificando padrões estilísticos antigos como a poesia e a literatura de sabedoria, adequando-os aquilo que se desejava expressar.

c) A Bíblia é ambígua no sentido de produzir sobre seu leitor diversas sensações

Por fim, a Bíblia como artefato artístico é dotada de ambiguidade, é fato que como palavra de Deus ela o revela e nunca volta vazia em relação a alma daquele que se propõe a lê-la, no entanto além deste significado teológico, a Palavra de Deus pode despertar em seus apreciadores sensações que às vezes possam parecer conflituosas, em síntese as palavras da Bíblia causam impactos bem particulares naqueles que leem, tanto na esfera do religioso - uma rápida reflexão sobre quanto já se produziu de teologia revela isso, quando na esfera secular. Como obra artística ela impacta a experiência daquele que usufrui dela de tal maneira que toma um significado para este, seja um significado religioso ou não e é por isso que as (re) leituras de passagens parecem ser tão distintas, é o caso, por exemplo,  dos mais recentes de filmes baseados em histórias bíblicas ou da própria estética das pinturas e esculturas de cunho religioso, que mudam com o tempo, tais produtos nada mais são de que a expressão de  uma maneira distinta de observar artefato artístico que é a Bíblia.


Concluindo

O entendimento da Bíblia como um artefato artístico é um bom começo para que cristão pare e repense sobre como ele lida com a arte no decorrer de sua vida. Infelizmente, no contexto brasileiro, a arte é frequentemente demonizada, no entanto isto é correto? Se pensarmos que a própria revelação foi transcrita em padrões artísticos e que por isso pode ser chamado de artefato artístico, será que não deveríamos começar a estabelecer uma visão mais trabalhada sobre a arte no geral? Se a própria arte está em diálogo com a verdade, porque aqueles que afirmam ser seguidores da verdade não podem estabelecer um diálogo mais profundo com as manifestações artísticas independente de propriedades religiosas inerentes a ela ou não? São questões que merecem reflexão.