quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A Luxúria Espiritual




O evangelho está sendo vivido e pregado às avessas. Orgulho no lugar de humildade, prostituição no lugar de santidade, a vida espiritual tem sido substituída por momentos mercantilizados. Infelizmente,  a comunhão com Deus, que deveria ser entendida como amizade, tem sido pregada como uma relação econômica, onde a troca é o meio e o fim, numa perspectiva que não leva em consideração o processo do doar, mas que é pautada em uma impessoalidade digna de drive thru. 

O resultado não poderia ser outro, nós vivemos uma luxúria espiritual, um termo que aparentemente é paradoxal e pós-moderno, mas que é ideal para definir nossa problemática. A luxúria é entendida como uma emoção intensa pelo corpo, na doutrina católica é considerada como uma porta para outros pecados sexuais, dentre eles o sadismo, que é o prazer infligir no outro dor, e o masoquismo, que é o prazer de ser vítima de sofrimento físico executado por outrem. Já a sabedoria oriental chama a luxúria de um demônio insaciável, guardemos essas informações.

Assim, quando afirmo que vivemos em luxúria espiritual, quero dizer que espiritualizamos certas coisas que não tem nada de espiritual e a partir disso, aplicamos nestas coisas uma busca erótica sádica e masoquista, que é transvestida de religiosidade sadia. Nós não saímos do nosso "carro", mas no drive thru da devoção, queremos sentir, receber e ter todos os beneplácitos e benefícios que o divino pode trazer, não importa se sentiremos dor ou infligiremos dor. 

A consequência disso é bastante simples. Nós nos alienamos de Deus. A partir da deturpação da verdadeira prática de fé, que é a comunhão com o outro, o amor para o outro, a amizade com o outro e a devoção pura, sincera por Deus, que tem na prática do que foi dito expressão máxima, nós escutamos personagens eloquentes e somos levados a vermos uma imagem de Cristo que não é aquele narrado pela Bíblia. Cada vez mais, nos contentamos com retratos falados, quando poderíamos ver a Deus face a face. 

Todo esse processo é sinal do coração idólatra. Adoramos homens, porque achamos que somos cheios de sabedoria, nos submetemos a exploração, a humilhação, aos danos e a escravidão porque no fundo o que nós desejamos é um dia assumir o lugar daqueles que são aclamados e aplaudidos. Queremos que a multidão nos idolatre, da mesma forma que hoje idolatramos aqueles que invejamos. 

Mas, que possamos lembrar do exemplo de Deus, que abandonando a glória e o poder tornou-se amigo de pobres, pescadores, pecadores, endemoniados e cobradores de impostos, que possamos lembrar que ele rechaçou os religiosos, os sábios e que todos aqueles que se acharam cheios de si, nunca puderam experimenta-lo. Para usufruirmos de uma amizade com Deus, nos é requerido nada e tudo ao mesmo tempo. Precisamos negar a nós mesmos, deixar de lado o desejo e ganância erótica da carnalidade de ser idolatrado, necessitamos nos ajoelhar diante do Eterno e servir todos aqueles que um dia chegamos a desejar que fossem nossos serviçais.