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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

20 Frases Sobre Arte para Pensar Teologicamente a Arte

A graça de Deus se manifesta de maneira ilimitada entre os seres humanos, a arte é um espaço para essa manifestação. Logo abaixo, deixo algumas frases que por mais que não sejam feitas por teólogos ajudam cada um que as lê a pensar no papel da arte na sua relação, direta ou indireta, com o labor teológico.




1-"Um artista é aquele que percebe mais que seus companheiros, e que registra mais do que vê." Edward Gordan Craig

2- "A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível." Leonardo da Vinci

3- Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma. George Bernard Shaw.


5- "A essência de toda arte bela, de toda grande arte, é a gratidão." Friedrich Nietzsche

6-  "Todo artista molha seu pincel em sua própria alma, e pinta sua própria essência em seus quadros." Henry Ward Beecher

7-  A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade Pablo Picasso. 

8-  A arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade. Maugham , William

9- "O objetivo dos artistas é quebrar janelas nos muros da cultura local para a eternidade." Joseph Campbell

10-  "A funçao da arte não é a de passar por portas abertas, mas a de abrir portas fechadas."Ernerst Fischer

11- "As artes e as ciências históricas são modos de experimentação nos quais nossa própria compreensão da existência entram diretamente em ação." Hans-Georg Gadamer

12- "Existe um artista aprisionado em cada um de nós. Deixe-o solto para espalhar alegria por toda parte." Bertrand Russell

13- A arte de um povo é a sua alma viva, o seu pensamento, a sua língua no significado mais alto da palavra; quando atinge a sua expressão plena, torna-se património de toda a humanidade, quase mais do que a ciência, justamente porque a arte é a alma falante e pensante do homem, e a alma não morre, mas sobrevive à existência física do corpo e do povo. Ivan Turgueniev 

14-  O assunto mais importante do mundo pode ser simplificado até ao ponto em que todos possam apreciá-lo e compreendê-lo. Isso é - ou deveria ser - a mais elevada forma de arte. Charles Chaplin
15-  A diferença entre a Arte e a Vida é que a Arte é mais suportável. Charles Bukowski

16- Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver. Bertold Brecht

17- A finalidade da arte é dar corpo à essência secreta das coisas, não é copiar sua aparência. Aristóteles

18- A arte é a contemplação; é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que a natureza também tem alma.  Auguste Rodin

19- A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são.

20- “A autêntica intuição artística vai além do que percebem os sentidos e, penetrando a realidade, tenta interpretar seu mistério escondido.”  João Paulo II

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Por uma Igreja Mais Artística

Estamos nos aproximando do nosso 2º Encontro Refletindo a Graça que ocorrerá no dia 30 de Outubro na Comunidade Extrema Unção às 18 horas ( ACESSE AQUI) e como nosso tema este ano será arte uma série de posts sobre o assunto tem figurado por aqui e este é um deles.

PARA ACESSAR OS POSTS ANTIGOS CLIQUE AQUI



O cristianismo tem uma história rica no que toca as artes, mas como toda as áreas da história cristã, a  história das expressões artísticas tem sido jogada no lixo em prol do utilitarismo e de um modo de vida higienizado do belo e sujo de consumo. 

Um cristão médio não possui dentro de seus parâmetros religiosos nenhum apreço pela contemplação da arte da natureza ou da arte humana, no entanto, a igreja pode ser um ambiente revolucionador desta perspectiva trazendo ao seu fiel a desalienação de sua inteligência em relação ao produto da sua e da criatividade alheia. Neste curto artigo,  convoco você a fazer coro com um chamado provocativo à igreja para construção de um ambiente mais amigável a arte. 

1- A Igreja como Um Espaço de Apresentações Artísticas

A maneira popular de se viver o cristianismo evangélico é permeada por ideias místicas perniciosas para uma vivência mais ampla de nossa religiosidade. Infelizmente, se cultiva em nossos arraiais a errônea crença de que o nosso espaço de culto é sagrado e intocável, o que acaba por desaguar geralmente na falta de uso de um espaço bastante estruturado, que poderia ser usado para o cultivo de expressões artísticas. A ideia pode parecer estranha para muitos, no entanto, isso já acontece em igrejas de tradição católica ( palco de apresentações eruditas gratuitas no Recife), igrejas evangélicas emergentes ( que abrigam shows de rock e música contemporânea cristã) e em igrejas luteranas ( mais especificamente igrejas na alemãs que além de servirem de espaço oferecem os espetáculos de música erudita gratuitamente ou ao custo de um pequeno valor), inclusive, algumas oferecem o espaço para que filmes sejam exibidos,  e tem dado muito certo pois além de aproximar o povo da igreja, promove o cultivo da sensibilidade artística. 

2- A Igreja como Obra de Arte

O tempo passou e os cristãos se acostumaram a se reunir em galpões ao invés de igrejas, abandonando todo aspecto do belo que permeava a arquitetura dos primeiros templos. Esse abandono de certa forma é oriundo de uma raiz iconoclasta que rompe com a decoração artística por oposição a idolatria. No entanto, apesar da boa preocupação, isso resultou no empobrecimento da igreja como obra de arte e consequentemente do seu simbolo como espaço do sagrado. Hoje, igrejas lembram mais shoppings do que lugares de adoração, mas isso é passível de mudança e não necessariamente caro, grandes janelões, cruzes, grafitagens, vitrais, quadros, mosaicos com restos de cerâmica, são exemplos de como podemos tornar o nosso espaço de culto evocativo do sagrado pela arte novamente.

3- A Igreja como Promotora da História Artística

Não adianta apenas promover atividades isoladas que venham a fazer arte, pois uma abordagem que não leve em consideração a história da arte com o cristianismo se perderá e será esquecida como tantas outras são. A igreja como a comunidade da memória do sacrifício do Eterno, pode se tornar também a comunidade da memória da arte sobre tal sacrifício e isso pode ocorrer de diversas maneiras, desde um pequeno curso sobre pensadores e artistas que contribuíram com a arte e eram cristãos até uma espécie de "pequeno museu" expondo originais ou cópias de obras de arte. 

4- Valorizando seus Artistas

Por último, uma igreja mais artística saberá valorizar o artista dentro de suas paredes, independente do que ele faz. Uma igreja mais artística, portanto, poderá ajudá-lo na construção de sua arte, financiando-o em seus estudos ou quem sabe promovendo-o. O importante é ter em mente que igreja é família e como família auxiliamos uns aos outros em nossos sonhos.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Quando a Teologia Encontra a Literatura: O que Aprendi com Alice no País das Maravilhas



Acabei de ler Alice no País das Maravilhas e  Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá, e posso dizer que foram leituras muito agradáveis e cheias de humor.  A pequena Alice nos leva através de seus sonhos a mundos fantásticos, estranhos, psicodélicos e confusos, uma viagem muito encantadora. 

E enquanto eu caminhava com Alice em suas aventuras, eu encontrei na literatura tão bem feita de Lewis Carroll um pouco da minha própria fé. Lá no país das Maravilhas ou no mundo para além dos espelhos algumas palavras serviram de atalho para encontrar a graça de Deus e isso me levou a pensar novamente que não existe limites para ação da graça divina e sua mensagem. 

Uma das últimas frases que me chamou a atenção, e que será a primeira que comentarei,  foi aquela da personagem Rainha Vermelha em um diálogo com a própria Alice, no trecho ela diz: 

Depois que se diz uma coisa, ela está dita e você precisa arcar com as consequências"


 Nestes tempos, onde ser tardio no falar tornou-se muito raro, a Rainha Vermelha ecoa em sua pequena frase a voz do Espírito gravada nas páginas de um velho livro, cheio de uma sabedoria tão atual. Lá, no livro, usado por vezes como amuleto, o próprio Deus nos fala e explica de maneira ainda mais profunda aquilo que disse a personagem do Carroll: 

Provérbios - 13:3
Quem guarda a sua boca guarda a sua vida, mas quem fala demais acaba se arruinando. 


No entanto, guardar a boca e guardar a vida para não se arruinar e assim ter consciência de que quando se diz algo é necessário se arcar com o que é dito não é um trabalho fácil, pois carece de foco, motivação, propósito e porque não dizer destino? Uma boa palavra, uma boa ação é aquela que tem intencionalidade, que possui uma direção. 

Mas, quantas vezes não acabamos como Alice em seu encontro com o gato de Cheschire, desejosos de caminhar, mas duvidosos de onde queremos chegar? Uma jornada sem destino é como a boca imprudente, que se perde nas consequências de suas falas inconsequentes. Porém, voltando ao começo do parágrafo prestemos juntos atenção ao diálogo mais charmoso de toda a história de Alice no País das Maravilhas, 

O Gato apenas sorriu quando viu Alice.Parecia de boa índole, ela pensou, mas não deixava de ter garras muito longas e um número respeitável de dentes, por isso ela sentiu que devia ser tratado com respeito.
- "Gatinho de Cheshire"...começou um pouco tímida, pois não sabia se ele gostaria do nome,
mas ele abriu mais o sorriso.
- "Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?"
- "Isso depende bastante de onde você quer chegar", disse o Gato.
- "O lugar não me importa muito...", disse Alice.
- "Então não importa que caminho você vai tomar", disse o Gato." 


Perceba que Alice gostaria de simplesmente sair de onde estava, no entanto, sair de onde estamos implica sabermos para onde querermos ir, mas se assim como Alice estamos perdidos e não temos ideia do nosso destino ao ponto de o lugar do destino não importar muito, então não será importante o caminho que iremos tomar. Nóss andaremos muito e chegaremos a algum lugar,  isso é um fato,  mas para qual paradeiro um caminho incerto levará? 

Novamente, aquele velho livro empoeirado na prateleira tem uma resposta para a angústia suscitada pelo diálogo escrito acima e ele nos diz,

Mas a vereda dos justos é como uma luz resplandecente, Que aumenta de brilho mais e mais até o dia perfeito. O caminho dos perversos é como a escuridão: Não sabem eles em que tropeçam. Provérbios 4:18,19 
Mas, a vontade de caminhar para qualquer lugar é maior do que a vontade de chegar em um lugar certo e neste processo, infelizmente, perdemos nossa bússola e sem ela, ao contrário da alegre história de Alice, vivemos uma triste história, pois 

Nós não conhecemos o caminho da paz, não há juízos em nossos passos, fizemos veredas tortuosas para nós mesmos e nelas andamos ignorantes da verdadeira paz ( paráfrase do verso 8 de Isaías 59)
 Porém, o escritor da própria vida, aquele que inspirou o velho livro da prateleira, se fez morte para aqueles que estavam mortos usufruíssem da vida, através de um novo nascimento. E em um certo dia, quando gente curiosa resolveu parar e duvidar se qualquer caminho realmente serviria para chegar onde se deveria chegar, o escritor rindo respondeu a pergunta com uma nova bússola.

Assegurou-lhes Jesus: “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.  João 14.6

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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O Protestantismo é Antiartístico?



Igreja Luterana na Alemanha


No Brasil, o protestantismo e o evangelicalismo são pobres artisticamente e isso infelizmente é um fato indiscutível. Esta pobreza artística é fruto de conjunturas históricas enraizadas na formação do Ethos evangélico brasileiro que influenciado pelo evangelicalismo estadunidense, pelo pentecostalismo, pelo profundo embate com o catolicismo e pela formação da religião principalmente entre os mais pobres e não alfabetizados criou uma cultura da não cultura artística no Brasil evangélico. 

Na contemporaneidade, a inexpressividade artística cristã protestante deixou um povo carente de rico imaginário, o que consequentemente abriu espaço para uma iniciativa mercadológica que trouxe ao Brasil como arte o pior da indústria cultural cristã do mundo e o mais prejudicial disso foi que o sectarismo fundamentalista que envolve nosso  Ethos permitiu que este produto transvestido de artigo de fé e obra de arte infestasse como uma doença nossos cultos, como se fosse de fato elemento litúrgico, acabando com o já insipiente resquício de uma expressividade genuína na arte cristã por aqui. 

Mas, voltando ao princípio... o protestantismo brasileiro é antiartístico em todas as áreas. Além dos fatos já citados no parágrafo introdutório a própria educação neste país nos ajuda a criar o falso pensamento de que ser protestante é ser destituído de um imaginário artístico sacro. Primeiramente, nenhuma aula de história ou religião que tenho conhecimento faz menção a proibição que o governo brasileiro fazia aos evangélicos em relação aos seus aparatos litúrgicos, sua simbologia, suas artes plásticas e sua arquitetura. Salvo raras exceções, a maioria não podia construir igrejas na forma de igrejas, usar vitrais, cruzes, nem utilizar de vestes ou aparatos, como crucifixos,  que evocassem um imaginário cristão. 

É bem verdade que partes do protestantismo se colocaram em oposição a expressão artística no decorrer da história, principalmente aquela que encontra nas artes plásticas um cenário de expressividade, os puritanos, os anabatistas, parte do calvinismo e outros grupos da reforma radical foram exemplos disso. No entanto, o imaginário artístico cristão protestante nunca foi abandonado, e se 

O imaginário protestante, segundo Manuel Lopes, não se esmerou em preservar o desejável equilíbrio entre palavra e imagem, [ele]  ficou voltado para o texto literário ou musical. Para o discurso da expressão oral (sermões) e para a acústica (hinos)
E foi assim que o protestantismo brindou o mundo por exemplo com Bach,

 que referido como “o maior compositor protestante”... “músico e protestante tardio da Reforma, manteve intactas a inspiração e a teoria estética de Lutero”. Textos e músicas de suas duzentas cantatas e “Paixões” são testemunhas da existência de um “imaginário” protestante de grande profundidade .
 Infelizmente, nem esse apreço pela música nos restou, a pasteurização de canções estrangeiras se tornaram parte cotidiana dos nossos cultos, onde a apreciação das canções e a valorização da teologia pela estética musical foram deslocadas para o abismo em prol da apresentação de um novo repertório que mais parece um "museu de grandes novidades". E o que dizer dos sermões? Por diversas vezes, o que deveria ser uma real exposição da verdade bíblica se transforma em mais uma péssima apresentação humorística ou simples doutrinação à subserviência acrítica. 

Ainda sobre as artes plásticas e a problemática da idolatria, relação bastante destacada por líderes brasileiros, as palavras de Thiago Surian podem ajudar, 

Bom, a Bíblia não proíbe fazer imagens, tirar fotos, assistir TV, olhar quadros, enfim, representar ou olhar para representações visuais das coisas. Deus até mandou fazer imagens de anjos na arca da aliança logo depois de proibir a adoração a imagens (Êxodo 25:17-22). O que a Bíblia condena é atribuir algum poder, espírito, sorte ou alma às imagens e pedir coisas a imagens como se houvesse algo nelas, ou que elas fossem algum ponto de contato com a entidade espiritual (deuses, santos mortos, pessoas mortas, pessoas vivas, etc), ou então pedir coisas a outras entidades espirituais que não a Deus, ou amar qualquer coisa terrena mais que ao próximo e a si mesmo, amor grande assim só deve ser devotado a Deus. Isso sim é que é idolatria e nisso condenamos os católicos, espíritas, adolescentes fãs de artistas gospel ou seculares e adeptos de qualquer religião, corrente de pensamento ou modismo social que assim procedem. Mas ter uma representação visual de algo não é condenado pelo Senhor. Aqui uma simples interpretação de texto, sem muita aplicação até de hermenêutica bíblica, já deixaria essa questão bem clara.
Como se vê a idolatria vai mais além da imagem e da estética plástica. Esta, inclusive, pode ser entendida como ferramenta a evangelização, nas palavras de Lutero,

É melhor que se pinte nas paredes, como Deus criou o mundo, como Noé construiu a Arca, e outras belas histórias, do que quaisquer outras mundanamente vulgares. Ah, quisera Deus que soubesse convencer os Senhores e Ricos para que pintassem a Bíblia inteira por dentro e por fora das casas, para que todos pudessem ver. Isso seria uma obra fielmente cristã.


Então, talvez pudéssemos nos perguntar, o que foi destruído e porque foi destruído dentro dos círculos protestantes no que consta as artes, afinal, coisas foram destruídas não? Sim foram, mas a própria Reforma ajudou na produção de volume expressivo de arte e além disso 

A destruição de obras de arte não ocorreu em função de sentimento anti-artístico, mas como símbolos religiosos que representavam heresias explícitas diante da qual a Reforma estava se posicionando contra por outras razões. (SCHAEFFER, 2008)
Além disso, muitos dos simbolismos, representações, imagens e festas do culto cristão que foram desenvolvidos pela história do cristianismo, antes do protestantismo, foram mantidos com a ideia de ensino pedagógico da Palavra de Deus. Isso fazia-se necessário porque saber ler era um privilégio para poucos durante milênios da história humana e  foi até o próprio protestantismo um dos responsáveis pela mudança, incentivando a educação pública e gratuita para que todos pudessem ler a Palavra de Deus.

O decorrer do tempo demonstra o quanto a ligação entre símbolo, imaginário e religião não podem ser desconstruídos, na contemporaneidade, inclusive em solo brasileiro com o avanço educacional e a formação de uma geração interessada na busca de suas raízes e combate do massante produtivismo religioso,  evangélicos mantém e expandem sua promoção da arte sacra, apesar de, ao meu ver, esta promoção ser escassa e carente de maiores investimentos financeiros e simbólicos. 

Assim, Não devemos entender que a fé é destituída da arte. O cristianismo não é uma religião que se preocupa apenas com almas, Wesley ressaltou a necessidade da integralidade de relacionamento entre todas as esferas da criação e Deus, a restauração operava-se do homem à Deus, do homem ao homem, e do homem à criação. Portanto, a cultura é ambiente de atuação do exercício da remição, como nos ensina Robinson Cavalcanti, 

nós cristãos somos ensinados que a humanidade tem um mandato cultural que foi maculado pelo pecado original e que é dever da Igreja recuperá-lo segundo o ideal do Criador, ao promover os valores do reino de Deus, o direito natural e o bem comum. Também aprendemos que devemos fazer isto como mensageiros, missionários, evangelistas, embaixadores, sal e luz, não de uma cristandade político-militar ou teocrática, mas como uma comunidade afirmadora da soberania de Deus sobre a história e do reinado do singular Jesus Cristo sobre as nações -- o que implica uma evangelização das culturas chamadas à transformação segundo o projeto do Senhor e o caráter de Cristo.


Com isso, se faz necessário o resgate da nossa criatividade das amarras dos padrões medíocres, o resgate do símbolo e do imaginário presos nas jaulas da publicidade evangélica. De uma vez por todas, o fantasma da antiarte precisa ser exorcizado de nossos arraiais.  


REFERÊNCIAS

ALTMANN, Lori. Cristianismo e Arte: imaginário protestante. http://www3.est.edu.br/nepp/revista/007/ano04n2_03.pdf. 2005

CAVALCANTI, Robinson. Protestantes não iconoclastas. http://pavablog.blogspot.com.br/2009/12/protestantes-nao-iconoclastas.html, 2009 

CAVALCANTI, Robinson. Conflitos de Símbolos e Mandato Cultural. http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/334/conflito-de-simbolos-e-mandato-cultural/robinson+cavalcanti, 20102

PRATA, Sérgio. Iconoclasmo. http://www.sergioprata.com.br/port/iconoclasmo.html, 2015

SCHAEFFER, Frank. Viciados em Mediocridade.  São Paulo: W4 Editora, 2008 

SURIVAN, Thiago. Evangélicos e as Imagens. https://thiagosurian.wordpress.com/2014/06/19/evangelicos-e-as-imagens/, 2014







terça-feira, 11 de agosto de 2015

2 Princípios para Abordar a Arte





Olá, estamos nos preparando para o 2º Encontro Refletindo a Graça, que terá como tema a arte e sua relação com o cristianismo, por isso nesta volta das postagens do blog nós estamos tratando deste assunto. No primeiro post, lidamos com a ideia da Bíblia como um artefato artístico ( veja aqui) e hoje discutiremos um pouco como um cristão deve abordar o conteúdo artístico através de dois princípios: 1- Nossa identidade como criadores é oriunda da identidade de Deus como Criador e 2- A desconstrução da perniciosa divisão "sagrado" e " profano"

 Somos criadores porque Deus é Criador

Primeiramente, devemos deixar claro que abordar um conteúdo artístico que esteja fora do celeiro sacro para muitos é difícil, pois  o evangelicalismo brasileiro sofreu influência de uma perspectiva que entendia  o viver piedoso como uma existência isolada do mundo. A pureza espiritual estava ligada a ausência da experiência da vida no "mundo" e não na separação pela qualidade da vida vívida no "mundo". Assim é importante frisar que  desconstruir pensamentos como estes é sempre complicado, por isso o melhor é ter paciência e amor.

 No entanto, é válido deixar claro  que este isolacionismo criou, com o passar dos anos, um nicho de potenciais consumidores, e decorrente disso, muito do que se produz atualmente para o contexto religioso é na verdade uma pasteurização cultural que tem como principal objetivo fazer da fé um produto religioso, como já tratamos no artigo Indústria Cultural e Movimento Gospel.

Em decorrência disso, neste mundo de evangelicalismo de mercado, onde consumir arte é pecaminoso, o ambiente do sagrado e o ambiente do profano se mesclam em um único ambiente, o cenário de profanação, pois o pertencente a esfera do intocável pelas coisas do mundanismo- por exemplo, nossa adoração e os princípios de nossa fé-  que deveria inspirar respeito ao sagrado é convertido como celeiro para a promoção de uma lógica capitalista visadora do lucro.

Mas se um cristão parar para pensar, ele terá que admitir que a arte é fruto da ação criativa e em princípio criar é algo bom. Se continuar sua reflexão, chegará a conclusão que tudo aquilo que um ser humano possui é fruto da benevolência de Deus e que portanto a ação criativa é dádiva de Deus, que por sinal é o primeiro de todos os criadores, como fala Gêneses 1.1.

A única conclusão possível da reflexão é que a criatividade é um atributo de Deus, que por soberano amor resolveu compartilhar tal atributo conosco, dessa maneira, podemos dizer que envolver-se com atividades criativas é uma maneira de honrá-lo como autor de todas as coisas, pois se somos criadores é porque primeiramente Ele é. Assim voltando a ideia de que a arte é  fruto de uma ação criativa, produzi-la ou apreciá-la não fere a conduta cristã, mas a enaltece pois como bem fala Frank Schaeffer,

a criatividade, a apreciação da nossa criatividade, a criatividade das pessoas ao nosso redor- em suma, toda beleza que Deus colocou em nossa vida- é um dom gracioso e benéfico que vem do nosso Pai Celestial. ( 2008, p. 23)


A Desconstrução da Perniciosa Divisão "Sagrado" e "Profano"

É bem verdade que a religião pode ser definida através da dualidade entre o sagrado e o profano, inclusive este é o entendimento do sociólogo Durkheim, contudo esta dualidade apesar de bastante coerente e extremamente instrutiva não representa toda a realidade da religião, principalmente do cristianismo. Pois, apesar de podermos estabelecer elementos do sagrado e elementos do profano dentro da religiosidade cristã ( eu já fiz isso em outros artigos e inclusive neste) se aprofundarmos o assunto biblicamente a questão começa a se tornar bastante complexa, pois o cristianismo na sua essência rompe com a divisão destas duas dimensões da realidade, as unindo. 

Dentro do cristianismo não existe um estado substancial, ou seja, permanente do sagrado ou do profano, existe sim a obra da carne e a obra do Espírito e tais obras podem se manifestar no que poderia ser considerado sagrado ou profano, um exemplo bem prático disso é como o espaço de culto da minha igreja é usado. Durante as tardes da semana o espaço da igreja é usado por um projeto social que atende crianças ( uma atividade mundana, ou seja, da esfera do profano), contudo em algumas noites o mesmo espaço é usado para as atividades de culto e ensino da Palavra ( uma atividade sagra, ou seja, da esfera do sagrado). A divisão, neste caso, é circunstancial e transitória, e mesmo assim, apesar da primeira atividade estar em um nível "mundano" ela louva ao Senhor, porque se está cumprindo nela uma ação diacônica para com o mundo. 

Os próprios versos da Bíblia colaboram para este entendimento e deixam claro que o Senhor desconstruiu esta divisão, vejamos: (a) Deus, ao se fazer homem, se fez profano para que houvesse justiça em nós ( 2. Corintios 5. 21); (b) o véu do templo foi rasgado e o que era santo e intocável agora é acessível aqueles que não eram considerados  dignos ( Mateus 27. 51), (c) o que faz de algo impuro não é este algo por si só, mas aquilo que provém do nosso coração, como exemplifica as questões alimentares ( Romanos 14. 14;  Mateus 15.19). Por fim, a epístola de Pedro ainda deixa claro que não se trata de viver uma dualidade dentro da realidade - o sagrado e o profano, mas uma consciência santa diante de todas as coisas, sendo assim ,
 Como filhos da obediência, não permitais que o mundo vos amolde às paixões que tínheis outrora, quando vivias na ignorância.Porém, considerando a santidade daquele que vos convocou, tornai-vos, da mesma maneira, santos em todas as vossas atitudes.Porquanto, está escrito: “Sede santos, porque Eu Sou santo!” (1 Pedro 1. 14-16)

Com a arte não é diferente, fazer ou apreciar arte não está ligado ao seu caráter intrinsecamente sacro ou profano, mas a nossa conduta em relação a ela. Se somos artistas, aquilo que produzirmos seguirá não mais os moldes das nossas antigas paixões, ou seja, não  mais os pensamentos  de morte, adultério, fornicação, furto, falso testemunho e blasfêmia, mas aquilo que procede do Senhor e assim tudo que fizermos, mesmo que não esteja diretamente ligado ao contexto cúltico, do sagrado, - como é o caso do uso do espaço da igreja pelo projeto social- será em louvor ao Senhor, pois seremos santos em todas as nossas atitudes. 

A mesma lógica se apresentará na apreciação da arte, não nos sentiremos culpados ao ouvir uma boa música não cristã, assistir um filme ou ler um livro, pois entenderemos que o valor estético, artístico e o próprio ato criativo que cunhou aquela obra só foram possíveis porque o Criador concedeu ao artista uma faísca de sua chama criativa e que portanto, de um modo ou de outro, mesmo que não seja a intenção, aquela obra artística expressa e exalta ao Deus que governa nossas vidas e é produto de sua graça.

Sabendo pois que nada de bom e belo no mundo foge da influência do ser de Deus, que ao abordarmos a arte- seja na produção, seja na apreciação- possamos nos encher do sentimento da verdadeira santidade entendendo que por superabundar a graça de Deus em nós ( Romanos 5.12) tudo aquilo que fizermos necessariamente estará convertido e submetido a consciência cristã, independente se as circunstâncias forem mundanas ou sagradas.

REFERÊNCIAS

SCHAEFFER, Frank. Viciados em Mediocridade.  São Paulo: W4 Editora, 2008 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A Bíblia como Artefato Artístico

Estamos de volta com os posts e para abrir a nova temporada, falaremos de arte e cristianismo, uma temática que sempre dá bastante pano para manga e que também será assunto de discussão para o 2º Encontro Refletindo a Graça, que ocorrerá no dia 12 de setembro na Comunidade Cristã Extrema Unção, logo, logo, teremos mais informações por aqui, agora sem mais delongas, vamos ao que interessa!




A arte é parte daquilo que nos torna sujeitos culturais. Toda sociedade apresenta em sua história manifestações artísticas ricas, inclusive ligadas as práticas e reflexões religiosas. A arte transita entre o divino e o mundano, entre o sagrado e o profano, entre o culto e a profanação.

Apesar da dificuldade de definir o que de fato é arte, ela sempre se mostra presente na nossas experiências. Muitas correntes intelectuais têm estudado este fenômeno humano e concluído o quanto falar em arte e sobre arte é complexo.

Um sociólogo, chamado Pedro Peixoto Ferreira, em seu blog resolveu fazer uma síntese de alguns verbetes sobre o conceito de arte em prol de elucidar um pouco como este fenômeno é abordado pela sociologia, durante sua discussão ele diz que a arte é uma espécie de sistema que apresenta

sinais-símbolos com várias dimensões, veiculados por uma base material (pintura, escultura) ou corporal (dança) ou sonora (música) ou por várias combinações delas (teatro, ópera, multimídia). assim suas características essenciais são: 
    a) o predomínio que nele subsiste do componente expressivo, em relação aos componentes instrumentais e cognitivos;
    b) a atitude de estabelecer por si as regras da própria coerência interna, isto é, da própria sintaxe;
    c) e, sobretudo, uma inesgotável ambiguidade do ponto de vista genético, semântico e pragmático
A arte portanto é bastante dinâmica, possui uma espécie de estrutura interna, uma coerência que guia a manifestação em particular, além disso ela predominantemente expressa ao invés de se preocupar apenas com a instrumentalização de um tema apenas e por fim, apresenta uma constante e inesgotável fonte de significados que eclodem e se renovam com o tempo e através das subjetividades que a apreciam. A arte é um  fenômeno socialmente vivo.

Talvez seja difícil e bastante pretensioso tomar a Bíblia e tentar enquadrá-la nestes padrões afim de chamá-la de artefato artístico, no entanto, acredito que vale o esforço e por isso me atrevo a escrever sobre isso, pois ao colocar a Bíblia não só como o livro da revelação (como se isso fosse pouco) ou um livro de sabedoria, mas também como produto de arte, acredito que a relação entre o cristão e as mais diversas manifestações da arte possa ser de algum modo menos confusa.

Assim, a pergunta que podemos nos fazer é: A Bíblia é uma obra artística? Ela é um sistema de sinais-símbolos? Minha humilde resposta para tal pergunta é SIM. Vejamos por quais razões:

a) A Bíblia como meio de Expressão 

O primeiro ponto que se deve ter em mente é que para além de um manual de ensinamentos, a Bíblia é um recorte de subjetividades que experimentaram Deus e foram inspiradas por seu Espírito. A Bíblia é constituída pela história da salvação e pela revelação do ser de Deus, nas entrelinhas, estes elementos apontam para uma característica comum entre a arte a Bíblia: a capacidade de ambas de lidar com aquilo que a racionalidade não pode lidar de maneira satisfatória, a irracionalidade, tanto das sensações, sentimentos, quanto do que é transcendente. No caso da Bíblia isso fica muito claro no uso poético do antropomorfismo para fazer entendível o ser de Deus ( Nm. 6.24/ Êxodo 20.5/ Salmos 34.15)

b) A Bíblia detém uma coerência interna e multidimensional

O segundo ponto no qual podemos nos ancorar para dizer que Bíblia possui características de um artefato artístico é sua coerência interna, primeiramente isto se encontra na costura lógico-teológica que nela podemos perceber, ou seja, apesar de ser um compilado de livros escritos por diversos autores humanos em diferentes épocas e que sofreram diversas influências culturais, encontramos em suas páginas a noção de obra única que se encaixa a partir de um único espírito criativo, em outras palavras, as aparentes contradições existentes não ferem a lógica interna da obra. Além disso, em termos formais, gramaticais e literários a Bíblia também inova estabelecendo novos padrões literários- os evangelhos são um exemplo disso, até sua escrita não existia nada igual ao que foi feito- e ressignificando padrões estilísticos antigos como a poesia e a literatura de sabedoria, adequando-os aquilo que se desejava expressar.

c) A Bíblia é ambígua no sentido de produzir sobre seu leitor diversas sensações

Por fim, a Bíblia como artefato artístico é dotada de ambiguidade, é fato que como palavra de Deus ela o revela e nunca volta vazia em relação a alma daquele que se propõe a lê-la, no entanto além deste significado teológico, a Palavra de Deus pode despertar em seus apreciadores sensações que às vezes possam parecer conflituosas, em síntese as palavras da Bíblia causam impactos bem particulares naqueles que leem, tanto na esfera do religioso - uma rápida reflexão sobre quanto já se produziu de teologia revela isso, quando na esfera secular. Como obra artística ela impacta a experiência daquele que usufrui dela de tal maneira que toma um significado para este, seja um significado religioso ou não e é por isso que as (re) leituras de passagens parecem ser tão distintas, é o caso, por exemplo,  dos mais recentes de filmes baseados em histórias bíblicas ou da própria estética das pinturas e esculturas de cunho religioso, que mudam com o tempo, tais produtos nada mais são de que a expressão de  uma maneira distinta de observar artefato artístico que é a Bíblia.


Concluindo

O entendimento da Bíblia como um artefato artístico é um bom começo para que cristão pare e repense sobre como ele lida com a arte no decorrer de sua vida. Infelizmente, no contexto brasileiro, a arte é frequentemente demonizada, no entanto isto é correto? Se pensarmos que a própria revelação foi transcrita em padrões artísticos e que por isso pode ser chamado de artefato artístico, será que não deveríamos começar a estabelecer uma visão mais trabalhada sobre a arte no geral? Se a própria arte está em diálogo com a verdade, porque aqueles que afirmam ser seguidores da verdade não podem estabelecer um diálogo mais profundo com as manifestações artísticas independente de propriedades religiosas inerentes a ela ou não? São questões que merecem reflexão.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

REDENÇÃO




Paz e graça! Hoje não teríamos posts, mas acabei sendo cheio de inspiração divina e escrevi algo um tanto que diferente do que tem no blog, trata-se de um poema, que se eu tivesse condições musicais viraria música, mas enfim... este não é o caso. 


Como já deixei subtendido em outros posts, a arte é uma boa maneira pela qual Deus fala conosco, então deixo aqui o meu poema e desejo que da mesma maneira que o Senhor falou comigo durante sua escrita, Ele fale com você. Abraços.

REDENÇÃO

Quando me olho no espelho e meu reflexo grita "violento"
Quando mergulho no meu íntimo e vejo o quanto lá existe de veneno
Olha, Deus, eu me pergunto e quanto mais pergunto não entendo
Como Tu sendo, tão santo, infinito e eterno
Fostes amar alguém tão contrário a todos os teus aspectos
A graça não se define, não existe palavra para teu amor
Tua santidade é doação, tua mão estende justificação
E quanto mais eu olho para cruz eu não compreendo
Apenas me constranjo e me perco...
Me declaro, finito, imperfeito e pequeno
E faço de cada palavra uma proclamação
És magnífico, salvador, criador supremo
Não te entendo, mas te entrego em agradecimento
Esta minha oração, vida arrependida, por teu Espírito convertida
Me mostra então tuas pegadas, alimenta-me com as tuas palavras
Para que eu possa diminuir, quem sabe até sumir
E fazer que cresça e apareça em mim até o fim
Só aquilo que seja bom, o todo que provenha de ti
Porque quando eu me olho, eu vejo apenas dor
Porque quando eu me escuto, escuto desamor
Porque quando eu estou diante de mim, vejo quanto mal eu fiz
Mas olhar para Ti é ver que não existe pecado tão grande assim
Mas escutar tua voz é entender o que é ser livre do algoz
Mas quando estou diante do Senhor, provo em verdade o amor.
Resgata-me de mim...
Faz morada aqui...
Pois tua é a glória...
E o domínio sobre mim...
Redentor!

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Deus é Poeta





No princípio Deus criou os céus e a terra. Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.” Gênesis 1:1-2

Quem me conhece sabe, entendo como maior de todas as provas da existência de uma entidade superior o poder de criação. Criar é ser semelhante a Deus, pois Deus é criador, sua imaginação é absoluta, infinita e plena. Deus é o primeiro de todos os criadores e sua criação é poíesis perfeita. Deus é poeta.

Gosto muito do termo poíesis. É um termo grego, muito usado por Platão em suas discussões sobre arte, nele encontramos um mundo de significados, assim como qualquer outro conceito ou categoria humana, entretanto, poíesis pode ser definido de maneira grosseira como o produzir, a capacidade, potencialidade de criação, também como imitação. A poíesis é tanto divina, quanto humana e se relaciona com o que é bom.

Atrevo-me a usar o conceito como quero, abusar dele, abandonando as rígidas definições e determinações que compete ao contexto acadêmico. Quero reiterar o meu elogio a Deus, apenas. Quero usar uma palavra bonita. A criação divina é poíesis, poesia pura. Deus é o poeta, somos em certo sentido os imitadores.

Isto me leva a pensar a arte como potencialidade, potência de ser, explicarei. Deus compartilhou conosco seu atributo eterno de criação, a humanidade se cria, se reinventa, se expressa, se traduz no sentir e na estética, no absurdo e no imaginário; sendo assim, o criar é a potência do nosso ser, nossa experiência é a terra sem forma e vazia onde o nosso espírito se move pelas águas. Criar é o imperativo do sentir, a água do nosso abismo. Quando não nos movemos sobre as águas, quando não resolvemos criar, resta-nos a doença, a desordem e o fim...

O criar é uma ordem, somos semelhantes a Deus e como seres semelhantes, nossa natureza nos impulsiona a produção. Fazer o que é bom, o que toca aos sentidos, o que emociona é fruto de uma graça comum, de uma graça que antecede a criação, intocada e encarnada na inspiração que provém da experiência de ser humano.

Criar é libertar-se do vazio. Criar é o princípio da liberdade. Criar é produzir, religar-se, renovar-se, é agir. Ser artista não é algo destinado apenas para poucos, ser criador já é ser artista e isso pertence a cada um de nós.



sábado, 12 de abril de 2014

Indústria Cultural e Movimento gospel




Em um artigo anterior, tentei demonstrar através de uma abordagem bem simplória a razão pela qual escutar música secular não me parece ser pecado. Nas próximas linhas, tentarei discutir como o fenômeno da música gospel se relaciona com a indústria cultural e a cultura de massa, se moldando da maneira como conhecemos.

O relacionamento entre cultura de massa – ou cultura de consumo- e música sacra se dá em um contexto capitalista e pós-moderno. Tal relacionamento entre sagrado e profano, só é possível pela dissolução dos paradigmas rígidos e das verdades universais, da manifestação da secularização e da predominância da lógica capitalista, perpetrada no ingrediente mais importante desta equação, o mundo do consumo.

O gospel como conhecemos surge desta manifestação. Antes apenas um vocábulo indicativo de uma expressividade musical do evangelicalismo avivalista norte- americano, o gospel torna-se uma cultura, que encerra em seu movimento uma modernização da liturgia de louvor, com consequente intervenção midiática e sacralização do consumo (MENDONÇA, 2007).

Deste modo, esta particular expressão de arte sacra se molda ao universal decadente de um dos aspectos do capitalismo, a chamada indústria cultural. A indústria cultural poderia ser definida como uma ferramenta capaz de “moldar” arte em mercadoria, operando a alienação da arte e sua transformação em uma coisa pasteurizada, sem visão crítica. Neste sentido, arte se torna mercadoria, forma torna-se molde e contemplação estética, consumo.

Quando a música religiosa toma como modelo este referido aspecto, sua manifestação não se demonstra diferente daquilo que é visto no mundo cultural não litúrgico. Não se tem um aspecto de sensibilidade estética do belo, o aspecto autoral se perde “nada aparece que já não traga antecipadamente as marcas do jargão sabido, e, à primeira vista, não se demonstre aprovado e reconhecido. (HORKHEIMER; ADORNO 2002)”

Neste quadrado pseudoestético, sempre há mais do mesmo, operando-se neste processo um empobrecimento da forma artística e do conteúdo teológico, aquela sendo pautada cada vez mais por recursos mercadológicos e o último revelando-se muito menos sagrado do que profano, através de sua centralidade no indivíduo e suas dores, vitórias, derrotas ou sonhos. Há nestas duas faces dois aspectos da pós-modernidade que para muitos são desapercebidos: a entronização do consumo em nosso cotidiano e a subjetividade e egocentrismo de nossas práticas, inclusive aquelas que são marcadamente comunitárias e transcendentes como é a religião.

O gospel em sua roupagem contemporânea é uma ferramenta de destruição da arte sacra, na transversão do louvor artístico em produto de consumo, ou melhor, em cultura de consumo, ele é a expressão da profanação capitalista do cristianismo. Como todos os outros elementos da indústria cultural em suas respectivas atuações, o gospel submete a arte cristã a métodos de produção em massa, a dinâmica do lucro e aceitação, produzindo alienação massificada em prol de sua sobrevivência.

Esta iniciativa ocorre em dois movimentos, o primeiro ataca a arte e o segundo o conteúdo teológico das músicas cristãs. No que toca a arte, como já falado, transforma-se arte sacra em produto sem gosto estético rebuscado; naquilo que toca o conteúdo teológico, há perda do ensino, do louvor a Deus e há a adoção de uma perspectiva de autoajuda, subjetivista, egocêntrica e cheia de frases feitas.

Para a retomada dos aspectos teológicos das canções em um início de retorno ao louvor, necessário se faz o escândalo, não o que o mundo conhece, mas aquele que é próprio de Cristo (Isaías 8:14/ Romanos 9:33/ 1 Coríntios 1:23), que como Deus, se fez homem e assim nos salvou, uma volta à teologia cristocêntrica.

E em relação a arte, concordo com Adorno e Horkheimer (2002), arte é ruptura, mesmo que sua transcendência dependa do estilo, ela não é refém deste; ela -de certo modo- o rompe. A obra medíocre se conforma com a imitação de outras, disfarçando-a de identidade, de estilo, a indústria cultural repete e absolutiza a repetição em seu menosprezo a inteligência artística, contudo, a verdadeira arte enaltece a autonomia e demonstra plena possibilidade na materialidade estética da beleza impossível na vida real.

Enfim... temos um longo caminho.


Indústria Cultural in: Wikipédia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ind%C3%BAstria_cultural. Acesso em 11/04/14.

HORKHEIMER, Max & ADORNO, Theodor. A indústria cultural: o iluminismo como mistificação de massas. Pp. 169 a 214. In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da cultura de massa. São Paulo: Paz e Terra, 2002. 364p.

MENDONÇA, Joêzer Souza. Canção Gospel: Interações entre religião, música e cultura pós-moderna. In: Acta Científica, 2007







sexta-feira, 14 de março de 2014

Um Cristão deve Apenas Ouvir Música Religiosa?



Música é um assunto que sempre dá pano para manga quando se considera o âmbito da igreja. Tradicionalmente, o evangelicalismo brasileiro, em sua dualidade exacerbada entre o profano e o sagrado, acaba por aplicar um julgamento que manifesta esta dualidade definido muito bem pela clara frase "um cristão não deve escutar músicas do mundo".

Esta argumentação está sendo repensada pela nova geração e tentando contribuir para esta reflexão, este artigo se propõe a pensa a seguinte frase: Será mesmo que um cristão deve apenas ouvir música religiosa?

Como falado em outro artigo, seres humanos são seres que habitam um mundo, que literalmente estão em um mundo e que não são chamado para sair dele, mas para afastarem-se do mal e revelar em suas vidas a graça de Jesus. Desenvolvendo este pensamento, podemos dizer que habitar um mundo é habitar todo um cosmos de vida e de relações que nos definem como seres sociais, isto inclui uma série de aspectos e um deles é a música.

Como diz kroeber, citado por Laraia (2001), a cultura determina o comportamento do homem, sua capacidade artística e profissional e ainda se apresenta como um processo cumulativo que limita ou amplia a capacidade criativa humana. Nossa vida é pura cultura de certo modo.

A música se apresenta como uma manifestação cultural humana de cunho estético e contemplativo, a partir dela flui-se sentimentos plurais que comunicam a partir de um sistema organizativo dos sons particular uma linguagem que pode vir a transcender a linguagem escrita ou oral. A música é ilimitada no que toca ao que se pode comunicar. 

Então, podemos perguntar: por qual razão limitá-la ao âmbito religioso? Pecamos ao ouvir algo que não é de autoria de um cristão e/ou que não tem como motivo a adoração? Isso ocorre porque maculamos o sagrado- nossa vida resgatada por Deus- com algo que aparentemente não tem como centro este  sagrado, portanto pecamos porque fazemos uso e gostamos do uso do que é profano ?

Se este for o motivo, então temos que repensar nossos outros atos, afinal, utilizamos do mundo do profano, usufruímos prazeres que pertencem a esta esfera da existência, comemos em restaurantes, consumimos doces e guloseimas, usamos roupas e nos divertimos com filmes, parques de diversões e livros diversos. Usufruímos do banal e o banal é profano em natureza, pois pertence ao mundo social, aquele que é inerente aos homens. Desta forma, se ouvir uma música secular é pecar porque profanamos nossa salvação e a colocamos na berlinda, penso que fazemos isso com o resto das coisas também e o engraçado é que isso não incomoda. 

Em poucas palavras, o que levanto aqui é que o usufruto de uma música que não é cristã é possível ao cristão, assim como todas as coisas também o são. Utilizamos de bens muito mais nocivos ao nosso corpo e a nossa consciência do que o prazer de uma boa música secular. Nós sustentamos um mundo que em sua totalidade estrutural fere os princípios dos mandamentos de Deus. 

Inseridos até o pescoço no capitalismo, nós sustentamos a exploração do próximo -portanto, não manifestamos por ele verdadeiro amor- e elegemos o consumo como Senhor de nossas vidas- um exemplo disso é quando preferimos comprar na cantina da igreja do que dar o mesmo valor de oferta; ou seja, trocamos o dar pelo movimento de troca e instauramos na nossa relação com Deus e com as coisas dele o escambo das bençãos. 

Sendo assim, se for para condenar o ouvir música secular e restringir os ouvidos aos "louvores" que se condene também o consumo, o cinema, o shopping, o restaurante e todo o resto que faz parte do mundo da vida que nos envolve, que todo crente acampe dentro da igreja e nunca mais saia de lá. Se pecamos por ouvir uma música de Caetano Veloso, Iron Maiden ou  Villa Lobos, quem dirá ao consumirmos aquele produto que tem na marquinha a frase "made in China", país no qual trabalhadores são explorados em uma espécie de pseudocomunismo.

Se tornamos coisas banais pecados e não olhamos para coisas que de fato são pecados e estão instaurados no sistema em que vivemos, nos alienamos da própria condição da salvação e acabamos por colocar todo crente no inferno, invalidamos a graça de Deus diante de coisas menores. 

Enfim, precisamos é seguir o conselho de Salomão no livro de Eclesiastes e entendermos que 
Já tenho entendido que não há coisa melhor para eles do que alegrar-se e fazer bem na sua vida; E também que todo o homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus [...] Assim que tenho visto que não há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua porção; pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele?Eclesiastes, Capítulo 03. Versos, 12- 13- 22
 
Sendo assim, haja em nossos coração alegria e prazer, inclusive escutando uma música de não tenha como motivo a adoração, que façamos no agrado de Deus e que Ele próprio, através do seu amor, da sua comunhão conosco e da sua Santa Palavra.

E só para não deixar passar, aqui está uma música secular que muito me agrada. 



Referência Bibliográfica: LARAIA, Roque de Barros, Cultura: um conceito antropológico 14. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001