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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Vivendo pela Fé: Âncora da Reforma

Estamos próximos do 3º Encontro Refletindo a Graça o qual terá por tema a Reforma Protestante. Hoje, estaremos dando continuidade a nossa série de posts sobre os impactos desse movimento religioso na vivência da espiritualidade cristã. Neste post falaremos de uma das colunas do protestantismo: a fé e seu efeito na certeza da salvação e, por conseguinte, na conduta cristã.



Na igreja da Idade Média a salvação estava bastante ligada a relação entre obtenção do perdão de pecados e penitências. A incerteza da salvação era a regra, o purgatório era um conforto e a igreja o caminho pelo qual a graça de Deus chegava aos miseráveis, através dos Santos, de Maria, de Cristo, dos Sacramentos e, porque não dizer, da própria hierarquia organizativa da igreja. Sobre isso, nos diz, Blainey (p. 111) 
O tratamento dispensado pela Igreja aos pecadores seguia uma fórmula: o pecador em busca do perdão confessava o pecado a um padre, que prometia absolvição, desde que cumprida a pena apropriada. Talvez o padre recomendasse orações, a prática de uma boa ação ou o pagamento em dinheiro. 
Mas, Lutero e depois os demais reformadores quebram com esse paradigma e resgatam a simplicidade bíblica, recupera-se então a doutrina da justificação da fé. Lutero conclui que a chave da salvação é o relacionamento do indivíduo com Deus. Todavia, não se trata daquilo que se pode fazer para Deus, por Deus ou no anseio de chamar a atenção de Deus. "Perdão e salvação eram dádivas de Deus, aos quais fariam jus somente aqueles que o amassem e confiassem em sua misericórdia." (BLAINEY, p. 111)

Lutero, assim como outros cristãos, tais como São Francisco e Paulo, vislumbrou uma grande verdade da espiritualidade cristã: "A confiança em Deus todo-misericordioso, que se revelou em Jesus Cristo, outorga aquela comunhão com Deus, aquele companheirismo, comparado com o qual, tudo o mais nada significa" (NICHOLS, p. 158) 

A mensagem que é âncora da reforma é e sempre será reconfortadora para os corações em desespero. Como antes, também agora é possível encontrar a mesma confiança e paz em Deus encontrada por Lutero ao ler os versos escritos em Hebreus 10. 38 “ Mas o justo viverá pela fé! Contudo, se retroceder, minha alma não se agradará dele”. Além delas, encontramos no mesmo verso a ordem de Deus para que nunca venhamos a abandonar a convicção que é Ele e apenas Ele que nos garante a vida.

A Bíblia nos certifica: nada é preciso para garantir a salvação, nada que façamos é capaz de nos dá a salvação. Apenas a recebemos e confiamos nos méritos Daquele que nos deu tamanha graça. Portanto, como está escrito, assim creiamos: 
Deus aceita as pessoas por meio da fé que elas têm em Jesus Cristo. É assim que ele trata todos os que creem, pois não existe nenhuma diferença entre as pessoas. Todos pecaram e estão afastados da presença gloriosa de Deus. Mas, pela sua graça e sem exigir nada, Deus aceita todos por meio de Cristo Jesus, que os salva. Deus ofereceu Cristo como sacrifício para que, pela sua morte na cruz, Cristo se tornasse o meio de as pessoas receberem o perdão dos seus pecados, pela fé nele. Deus quis mostrar com isso que ele é justo. Romanos 3. 21-26

Tomemos então o caminho, sabendo que Cristo morreu na hora certa e quando ainda éramos inimigos de Deus e que por Ele fomos reconciliados e agora somos chamados amigos de Deus.  Estamos salvos de toda ira divina e da prisão que era ser contado entre os pecadores. Enfim, cantemos como Davi jubilosamente: 

Feliz aquele cujas maldadesDeus perdoae cujos pecados ele apaga!Feliz aquele que o Senhor não acusade cometer pecado!”  (Salmos 32. 1-2) 

REFERÊNCIAS

BLAINEY, Geofrey. Breve História do Cristianismo
NICHOLS, Hasting Robert. História da Igreja Cristã 

Acompanhe-nos:https://www.facebook.com/refletindoagracaoficial/




segunda-feira, 3 de outubro de 2016

3º Encontro Refletindo a Graça Está Perto!



Boa noite senhoras e senhores, 

Estou passando bem rápido hoje para divulgar que em breve, estaremos nos reunindo para mais um de nossos encontros. Isso mesmo! Chegou a hora de Refletir a Graça e sobre a Graça novamente, de aprender mais e debater sobre como a Reforma mudou o jeito de viver o cristianismo.

Nesse ano de 2016, estaremos discutindo como a Reforma Protestante mudou a espiritualidade cristã, para isso, nós contaremos com o Pr. Nivaldo Garcia  como palestrante, que é responsável pela Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Recife. Além dele,  também estará presente a Banda Lilium Vitae como atração musical de abertura e fechamento do evento. 

E ainda essa semana, começaremos uma série de artigos preparatórios para nosso evento, então não tirem os olhos desse blog!

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

20 Frases Sobre Arte para Pensar Teologicamente a Arte

A graça de Deus se manifesta de maneira ilimitada entre os seres humanos, a arte é um espaço para essa manifestação. Logo abaixo, deixo algumas frases que por mais que não sejam feitas por teólogos ajudam cada um que as lê a pensar no papel da arte na sua relação, direta ou indireta, com o labor teológico.




1-"Um artista é aquele que percebe mais que seus companheiros, e que registra mais do que vê." Edward Gordan Craig

2- "A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível." Leonardo da Vinci

3- Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma. George Bernard Shaw.


5- "A essência de toda arte bela, de toda grande arte, é a gratidão." Friedrich Nietzsche

6-  "Todo artista molha seu pincel em sua própria alma, e pinta sua própria essência em seus quadros." Henry Ward Beecher

7-  A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade Pablo Picasso. 

8-  A arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade. Maugham , William

9- "O objetivo dos artistas é quebrar janelas nos muros da cultura local para a eternidade." Joseph Campbell

10-  "A funçao da arte não é a de passar por portas abertas, mas a de abrir portas fechadas."Ernerst Fischer

11- "As artes e as ciências históricas são modos de experimentação nos quais nossa própria compreensão da existência entram diretamente em ação." Hans-Georg Gadamer

12- "Existe um artista aprisionado em cada um de nós. Deixe-o solto para espalhar alegria por toda parte." Bertrand Russell

13- A arte de um povo é a sua alma viva, o seu pensamento, a sua língua no significado mais alto da palavra; quando atinge a sua expressão plena, torna-se património de toda a humanidade, quase mais do que a ciência, justamente porque a arte é a alma falante e pensante do homem, e a alma não morre, mas sobrevive à existência física do corpo e do povo. Ivan Turgueniev 

14-  O assunto mais importante do mundo pode ser simplificado até ao ponto em que todos possam apreciá-lo e compreendê-lo. Isso é - ou deveria ser - a mais elevada forma de arte. Charles Chaplin
15-  A diferença entre a Arte e a Vida é que a Arte é mais suportável. Charles Bukowski

16- Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver. Bertold Brecht

17- A finalidade da arte é dar corpo à essência secreta das coisas, não é copiar sua aparência. Aristóteles

18- A arte é a contemplação; é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que a natureza também tem alma.  Auguste Rodin

19- A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são.

20- “A autêntica intuição artística vai além do que percebem os sentidos e, penetrando a realidade, tenta interpretar seu mistério escondido.”  João Paulo II

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Por uma Igreja Mais Artística

Estamos nos aproximando do nosso 2º Encontro Refletindo a Graça que ocorrerá no dia 30 de Outubro na Comunidade Extrema Unção às 18 horas ( ACESSE AQUI) e como nosso tema este ano será arte uma série de posts sobre o assunto tem figurado por aqui e este é um deles.

PARA ACESSAR OS POSTS ANTIGOS CLIQUE AQUI



O cristianismo tem uma história rica no que toca as artes, mas como toda as áreas da história cristã, a  história das expressões artísticas tem sido jogada no lixo em prol do utilitarismo e de um modo de vida higienizado do belo e sujo de consumo. 

Um cristão médio não possui dentro de seus parâmetros religiosos nenhum apreço pela contemplação da arte da natureza ou da arte humana, no entanto, a igreja pode ser um ambiente revolucionador desta perspectiva trazendo ao seu fiel a desalienação de sua inteligência em relação ao produto da sua e da criatividade alheia. Neste curto artigo,  convoco você a fazer coro com um chamado provocativo à igreja para construção de um ambiente mais amigável a arte. 

1- A Igreja como Um Espaço de Apresentações Artísticas

A maneira popular de se viver o cristianismo evangélico é permeada por ideias místicas perniciosas para uma vivência mais ampla de nossa religiosidade. Infelizmente, se cultiva em nossos arraiais a errônea crença de que o nosso espaço de culto é sagrado e intocável, o que acaba por desaguar geralmente na falta de uso de um espaço bastante estruturado, que poderia ser usado para o cultivo de expressões artísticas. A ideia pode parecer estranha para muitos, no entanto, isso já acontece em igrejas de tradição católica ( palco de apresentações eruditas gratuitas no Recife), igrejas evangélicas emergentes ( que abrigam shows de rock e música contemporânea cristã) e em igrejas luteranas ( mais especificamente igrejas na alemãs que além de servirem de espaço oferecem os espetáculos de música erudita gratuitamente ou ao custo de um pequeno valor), inclusive, algumas oferecem o espaço para que filmes sejam exibidos,  e tem dado muito certo pois além de aproximar o povo da igreja, promove o cultivo da sensibilidade artística. 

2- A Igreja como Obra de Arte

O tempo passou e os cristãos se acostumaram a se reunir em galpões ao invés de igrejas, abandonando todo aspecto do belo que permeava a arquitetura dos primeiros templos. Esse abandono de certa forma é oriundo de uma raiz iconoclasta que rompe com a decoração artística por oposição a idolatria. No entanto, apesar da boa preocupação, isso resultou no empobrecimento da igreja como obra de arte e consequentemente do seu simbolo como espaço do sagrado. Hoje, igrejas lembram mais shoppings do que lugares de adoração, mas isso é passível de mudança e não necessariamente caro, grandes janelões, cruzes, grafitagens, vitrais, quadros, mosaicos com restos de cerâmica, são exemplos de como podemos tornar o nosso espaço de culto evocativo do sagrado pela arte novamente.

3- A Igreja como Promotora da História Artística

Não adianta apenas promover atividades isoladas que venham a fazer arte, pois uma abordagem que não leve em consideração a história da arte com o cristianismo se perderá e será esquecida como tantas outras são. A igreja como a comunidade da memória do sacrifício do Eterno, pode se tornar também a comunidade da memória da arte sobre tal sacrifício e isso pode ocorrer de diversas maneiras, desde um pequeno curso sobre pensadores e artistas que contribuíram com a arte e eram cristãos até uma espécie de "pequeno museu" expondo originais ou cópias de obras de arte. 

4- Valorizando seus Artistas

Por último, uma igreja mais artística saberá valorizar o artista dentro de suas paredes, independente do que ele faz. Uma igreja mais artística, portanto, poderá ajudá-lo na construção de sua arte, financiando-o em seus estudos ou quem sabe promovendo-o. O importante é ter em mente que igreja é família e como família auxiliamos uns aos outros em nossos sonhos.

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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O Protestantismo é Antiartístico?



Igreja Luterana na Alemanha


No Brasil, o protestantismo e o evangelicalismo são pobres artisticamente e isso infelizmente é um fato indiscutível. Esta pobreza artística é fruto de conjunturas históricas enraizadas na formação do Ethos evangélico brasileiro que influenciado pelo evangelicalismo estadunidense, pelo pentecostalismo, pelo profundo embate com o catolicismo e pela formação da religião principalmente entre os mais pobres e não alfabetizados criou uma cultura da não cultura artística no Brasil evangélico. 

Na contemporaneidade, a inexpressividade artística cristã protestante deixou um povo carente de rico imaginário, o que consequentemente abriu espaço para uma iniciativa mercadológica que trouxe ao Brasil como arte o pior da indústria cultural cristã do mundo e o mais prejudicial disso foi que o sectarismo fundamentalista que envolve nosso  Ethos permitiu que este produto transvestido de artigo de fé e obra de arte infestasse como uma doença nossos cultos, como se fosse de fato elemento litúrgico, acabando com o já insipiente resquício de uma expressividade genuína na arte cristã por aqui. 

Mas, voltando ao princípio... o protestantismo brasileiro é antiartístico em todas as áreas. Além dos fatos já citados no parágrafo introdutório a própria educação neste país nos ajuda a criar o falso pensamento de que ser protestante é ser destituído de um imaginário artístico sacro. Primeiramente, nenhuma aula de história ou religião que tenho conhecimento faz menção a proibição que o governo brasileiro fazia aos evangélicos em relação aos seus aparatos litúrgicos, sua simbologia, suas artes plásticas e sua arquitetura. Salvo raras exceções, a maioria não podia construir igrejas na forma de igrejas, usar vitrais, cruzes, nem utilizar de vestes ou aparatos, como crucifixos,  que evocassem um imaginário cristão. 

É bem verdade que partes do protestantismo se colocaram em oposição a expressão artística no decorrer da história, principalmente aquela que encontra nas artes plásticas um cenário de expressividade, os puritanos, os anabatistas, parte do calvinismo e outros grupos da reforma radical foram exemplos disso. No entanto, o imaginário artístico cristão protestante nunca foi abandonado, e se 

O imaginário protestante, segundo Manuel Lopes, não se esmerou em preservar o desejável equilíbrio entre palavra e imagem, [ele]  ficou voltado para o texto literário ou musical. Para o discurso da expressão oral (sermões) e para a acústica (hinos)
E foi assim que o protestantismo brindou o mundo por exemplo com Bach,

 que referido como “o maior compositor protestante”... “músico e protestante tardio da Reforma, manteve intactas a inspiração e a teoria estética de Lutero”. Textos e músicas de suas duzentas cantatas e “Paixões” são testemunhas da existência de um “imaginário” protestante de grande profundidade .
 Infelizmente, nem esse apreço pela música nos restou, a pasteurização de canções estrangeiras se tornaram parte cotidiana dos nossos cultos, onde a apreciação das canções e a valorização da teologia pela estética musical foram deslocadas para o abismo em prol da apresentação de um novo repertório que mais parece um "museu de grandes novidades". E o que dizer dos sermões? Por diversas vezes, o que deveria ser uma real exposição da verdade bíblica se transforma em mais uma péssima apresentação humorística ou simples doutrinação à subserviência acrítica. 

Ainda sobre as artes plásticas e a problemática da idolatria, relação bastante destacada por líderes brasileiros, as palavras de Thiago Surian podem ajudar, 

Bom, a Bíblia não proíbe fazer imagens, tirar fotos, assistir TV, olhar quadros, enfim, representar ou olhar para representações visuais das coisas. Deus até mandou fazer imagens de anjos na arca da aliança logo depois de proibir a adoração a imagens (Êxodo 25:17-22). O que a Bíblia condena é atribuir algum poder, espírito, sorte ou alma às imagens e pedir coisas a imagens como se houvesse algo nelas, ou que elas fossem algum ponto de contato com a entidade espiritual (deuses, santos mortos, pessoas mortas, pessoas vivas, etc), ou então pedir coisas a outras entidades espirituais que não a Deus, ou amar qualquer coisa terrena mais que ao próximo e a si mesmo, amor grande assim só deve ser devotado a Deus. Isso sim é que é idolatria e nisso condenamos os católicos, espíritas, adolescentes fãs de artistas gospel ou seculares e adeptos de qualquer religião, corrente de pensamento ou modismo social que assim procedem. Mas ter uma representação visual de algo não é condenado pelo Senhor. Aqui uma simples interpretação de texto, sem muita aplicação até de hermenêutica bíblica, já deixaria essa questão bem clara.
Como se vê a idolatria vai mais além da imagem e da estética plástica. Esta, inclusive, pode ser entendida como ferramenta a evangelização, nas palavras de Lutero,

É melhor que se pinte nas paredes, como Deus criou o mundo, como Noé construiu a Arca, e outras belas histórias, do que quaisquer outras mundanamente vulgares. Ah, quisera Deus que soubesse convencer os Senhores e Ricos para que pintassem a Bíblia inteira por dentro e por fora das casas, para que todos pudessem ver. Isso seria uma obra fielmente cristã.


Então, talvez pudéssemos nos perguntar, o que foi destruído e porque foi destruído dentro dos círculos protestantes no que consta as artes, afinal, coisas foram destruídas não? Sim foram, mas a própria Reforma ajudou na produção de volume expressivo de arte e além disso 

A destruição de obras de arte não ocorreu em função de sentimento anti-artístico, mas como símbolos religiosos que representavam heresias explícitas diante da qual a Reforma estava se posicionando contra por outras razões. (SCHAEFFER, 2008)
Além disso, muitos dos simbolismos, representações, imagens e festas do culto cristão que foram desenvolvidos pela história do cristianismo, antes do protestantismo, foram mantidos com a ideia de ensino pedagógico da Palavra de Deus. Isso fazia-se necessário porque saber ler era um privilégio para poucos durante milênios da história humana e  foi até o próprio protestantismo um dos responsáveis pela mudança, incentivando a educação pública e gratuita para que todos pudessem ler a Palavra de Deus.

O decorrer do tempo demonstra o quanto a ligação entre símbolo, imaginário e religião não podem ser desconstruídos, na contemporaneidade, inclusive em solo brasileiro com o avanço educacional e a formação de uma geração interessada na busca de suas raízes e combate do massante produtivismo religioso,  evangélicos mantém e expandem sua promoção da arte sacra, apesar de, ao meu ver, esta promoção ser escassa e carente de maiores investimentos financeiros e simbólicos. 

Assim, Não devemos entender que a fé é destituída da arte. O cristianismo não é uma religião que se preocupa apenas com almas, Wesley ressaltou a necessidade da integralidade de relacionamento entre todas as esferas da criação e Deus, a restauração operava-se do homem à Deus, do homem ao homem, e do homem à criação. Portanto, a cultura é ambiente de atuação do exercício da remição, como nos ensina Robinson Cavalcanti, 

nós cristãos somos ensinados que a humanidade tem um mandato cultural que foi maculado pelo pecado original e que é dever da Igreja recuperá-lo segundo o ideal do Criador, ao promover os valores do reino de Deus, o direito natural e o bem comum. Também aprendemos que devemos fazer isto como mensageiros, missionários, evangelistas, embaixadores, sal e luz, não de uma cristandade político-militar ou teocrática, mas como uma comunidade afirmadora da soberania de Deus sobre a história e do reinado do singular Jesus Cristo sobre as nações -- o que implica uma evangelização das culturas chamadas à transformação segundo o projeto do Senhor e o caráter de Cristo.


Com isso, se faz necessário o resgate da nossa criatividade das amarras dos padrões medíocres, o resgate do símbolo e do imaginário presos nas jaulas da publicidade evangélica. De uma vez por todas, o fantasma da antiarte precisa ser exorcizado de nossos arraiais.  


REFERÊNCIAS

ALTMANN, Lori. Cristianismo e Arte: imaginário protestante. http://www3.est.edu.br/nepp/revista/007/ano04n2_03.pdf. 2005

CAVALCANTI, Robinson. Protestantes não iconoclastas. http://pavablog.blogspot.com.br/2009/12/protestantes-nao-iconoclastas.html, 2009 

CAVALCANTI, Robinson. Conflitos de Símbolos e Mandato Cultural. http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/334/conflito-de-simbolos-e-mandato-cultural/robinson+cavalcanti, 20102

PRATA, Sérgio. Iconoclasmo. http://www.sergioprata.com.br/port/iconoclasmo.html, 2015

SCHAEFFER, Frank. Viciados em Mediocridade.  São Paulo: W4 Editora, 2008 

SURIVAN, Thiago. Evangélicos e as Imagens. https://thiagosurian.wordpress.com/2014/06/19/evangelicos-e-as-imagens/, 2014







terça-feira, 11 de agosto de 2015

2 Princípios para Abordar a Arte





Olá, estamos nos preparando para o 2º Encontro Refletindo a Graça, que terá como tema a arte e sua relação com o cristianismo, por isso nesta volta das postagens do blog nós estamos tratando deste assunto. No primeiro post, lidamos com a ideia da Bíblia como um artefato artístico ( veja aqui) e hoje discutiremos um pouco como um cristão deve abordar o conteúdo artístico através de dois princípios: 1- Nossa identidade como criadores é oriunda da identidade de Deus como Criador e 2- A desconstrução da perniciosa divisão "sagrado" e " profano"

 Somos criadores porque Deus é Criador

Primeiramente, devemos deixar claro que abordar um conteúdo artístico que esteja fora do celeiro sacro para muitos é difícil, pois  o evangelicalismo brasileiro sofreu influência de uma perspectiva que entendia  o viver piedoso como uma existência isolada do mundo. A pureza espiritual estava ligada a ausência da experiência da vida no "mundo" e não na separação pela qualidade da vida vívida no "mundo". Assim é importante frisar que  desconstruir pensamentos como estes é sempre complicado, por isso o melhor é ter paciência e amor.

 No entanto, é válido deixar claro  que este isolacionismo criou, com o passar dos anos, um nicho de potenciais consumidores, e decorrente disso, muito do que se produz atualmente para o contexto religioso é na verdade uma pasteurização cultural que tem como principal objetivo fazer da fé um produto religioso, como já tratamos no artigo Indústria Cultural e Movimento Gospel.

Em decorrência disso, neste mundo de evangelicalismo de mercado, onde consumir arte é pecaminoso, o ambiente do sagrado e o ambiente do profano se mesclam em um único ambiente, o cenário de profanação, pois o pertencente a esfera do intocável pelas coisas do mundanismo- por exemplo, nossa adoração e os princípios de nossa fé-  que deveria inspirar respeito ao sagrado é convertido como celeiro para a promoção de uma lógica capitalista visadora do lucro.

Mas se um cristão parar para pensar, ele terá que admitir que a arte é fruto da ação criativa e em princípio criar é algo bom. Se continuar sua reflexão, chegará a conclusão que tudo aquilo que um ser humano possui é fruto da benevolência de Deus e que portanto a ação criativa é dádiva de Deus, que por sinal é o primeiro de todos os criadores, como fala Gêneses 1.1.

A única conclusão possível da reflexão é que a criatividade é um atributo de Deus, que por soberano amor resolveu compartilhar tal atributo conosco, dessa maneira, podemos dizer que envolver-se com atividades criativas é uma maneira de honrá-lo como autor de todas as coisas, pois se somos criadores é porque primeiramente Ele é. Assim voltando a ideia de que a arte é  fruto de uma ação criativa, produzi-la ou apreciá-la não fere a conduta cristã, mas a enaltece pois como bem fala Frank Schaeffer,

a criatividade, a apreciação da nossa criatividade, a criatividade das pessoas ao nosso redor- em suma, toda beleza que Deus colocou em nossa vida- é um dom gracioso e benéfico que vem do nosso Pai Celestial. ( 2008, p. 23)


A Desconstrução da Perniciosa Divisão "Sagrado" e "Profano"

É bem verdade que a religião pode ser definida através da dualidade entre o sagrado e o profano, inclusive este é o entendimento do sociólogo Durkheim, contudo esta dualidade apesar de bastante coerente e extremamente instrutiva não representa toda a realidade da religião, principalmente do cristianismo. Pois, apesar de podermos estabelecer elementos do sagrado e elementos do profano dentro da religiosidade cristã ( eu já fiz isso em outros artigos e inclusive neste) se aprofundarmos o assunto biblicamente a questão começa a se tornar bastante complexa, pois o cristianismo na sua essência rompe com a divisão destas duas dimensões da realidade, as unindo. 

Dentro do cristianismo não existe um estado substancial, ou seja, permanente do sagrado ou do profano, existe sim a obra da carne e a obra do Espírito e tais obras podem se manifestar no que poderia ser considerado sagrado ou profano, um exemplo bem prático disso é como o espaço de culto da minha igreja é usado. Durante as tardes da semana o espaço da igreja é usado por um projeto social que atende crianças ( uma atividade mundana, ou seja, da esfera do profano), contudo em algumas noites o mesmo espaço é usado para as atividades de culto e ensino da Palavra ( uma atividade sagra, ou seja, da esfera do sagrado). A divisão, neste caso, é circunstancial e transitória, e mesmo assim, apesar da primeira atividade estar em um nível "mundano" ela louva ao Senhor, porque se está cumprindo nela uma ação diacônica para com o mundo. 

Os próprios versos da Bíblia colaboram para este entendimento e deixam claro que o Senhor desconstruiu esta divisão, vejamos: (a) Deus, ao se fazer homem, se fez profano para que houvesse justiça em nós ( 2. Corintios 5. 21); (b) o véu do templo foi rasgado e o que era santo e intocável agora é acessível aqueles que não eram considerados  dignos ( Mateus 27. 51), (c) o que faz de algo impuro não é este algo por si só, mas aquilo que provém do nosso coração, como exemplifica as questões alimentares ( Romanos 14. 14;  Mateus 15.19). Por fim, a epístola de Pedro ainda deixa claro que não se trata de viver uma dualidade dentro da realidade - o sagrado e o profano, mas uma consciência santa diante de todas as coisas, sendo assim ,
 Como filhos da obediência, não permitais que o mundo vos amolde às paixões que tínheis outrora, quando vivias na ignorância.Porém, considerando a santidade daquele que vos convocou, tornai-vos, da mesma maneira, santos em todas as vossas atitudes.Porquanto, está escrito: “Sede santos, porque Eu Sou santo!” (1 Pedro 1. 14-16)

Com a arte não é diferente, fazer ou apreciar arte não está ligado ao seu caráter intrinsecamente sacro ou profano, mas a nossa conduta em relação a ela. Se somos artistas, aquilo que produzirmos seguirá não mais os moldes das nossas antigas paixões, ou seja, não  mais os pensamentos  de morte, adultério, fornicação, furto, falso testemunho e blasfêmia, mas aquilo que procede do Senhor e assim tudo que fizermos, mesmo que não esteja diretamente ligado ao contexto cúltico, do sagrado, - como é o caso do uso do espaço da igreja pelo projeto social- será em louvor ao Senhor, pois seremos santos em todas as nossas atitudes. 

A mesma lógica se apresentará na apreciação da arte, não nos sentiremos culpados ao ouvir uma boa música não cristã, assistir um filme ou ler um livro, pois entenderemos que o valor estético, artístico e o próprio ato criativo que cunhou aquela obra só foram possíveis porque o Criador concedeu ao artista uma faísca de sua chama criativa e que portanto, de um modo ou de outro, mesmo que não seja a intenção, aquela obra artística expressa e exalta ao Deus que governa nossas vidas e é produto de sua graça.

Sabendo pois que nada de bom e belo no mundo foge da influência do ser de Deus, que ao abordarmos a arte- seja na produção, seja na apreciação- possamos nos encher do sentimento da verdadeira santidade entendendo que por superabundar a graça de Deus em nós ( Romanos 5.12) tudo aquilo que fizermos necessariamente estará convertido e submetido a consciência cristã, independente se as circunstâncias forem mundanas ou sagradas.

REFERÊNCIAS

SCHAEFFER, Frank. Viciados em Mediocridade.  São Paulo: W4 Editora, 2008 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A Bíblia como Artefato Artístico

Estamos de volta com os posts e para abrir a nova temporada, falaremos de arte e cristianismo, uma temática que sempre dá bastante pano para manga e que também será assunto de discussão para o 2º Encontro Refletindo a Graça, que ocorrerá no dia 12 de setembro na Comunidade Cristã Extrema Unção, logo, logo, teremos mais informações por aqui, agora sem mais delongas, vamos ao que interessa!




A arte é parte daquilo que nos torna sujeitos culturais. Toda sociedade apresenta em sua história manifestações artísticas ricas, inclusive ligadas as práticas e reflexões religiosas. A arte transita entre o divino e o mundano, entre o sagrado e o profano, entre o culto e a profanação.

Apesar da dificuldade de definir o que de fato é arte, ela sempre se mostra presente na nossas experiências. Muitas correntes intelectuais têm estudado este fenômeno humano e concluído o quanto falar em arte e sobre arte é complexo.

Um sociólogo, chamado Pedro Peixoto Ferreira, em seu blog resolveu fazer uma síntese de alguns verbetes sobre o conceito de arte em prol de elucidar um pouco como este fenômeno é abordado pela sociologia, durante sua discussão ele diz que a arte é uma espécie de sistema que apresenta

sinais-símbolos com várias dimensões, veiculados por uma base material (pintura, escultura) ou corporal (dança) ou sonora (música) ou por várias combinações delas (teatro, ópera, multimídia). assim suas características essenciais são: 
    a) o predomínio que nele subsiste do componente expressivo, em relação aos componentes instrumentais e cognitivos;
    b) a atitude de estabelecer por si as regras da própria coerência interna, isto é, da própria sintaxe;
    c) e, sobretudo, uma inesgotável ambiguidade do ponto de vista genético, semântico e pragmático
A arte portanto é bastante dinâmica, possui uma espécie de estrutura interna, uma coerência que guia a manifestação em particular, além disso ela predominantemente expressa ao invés de se preocupar apenas com a instrumentalização de um tema apenas e por fim, apresenta uma constante e inesgotável fonte de significados que eclodem e se renovam com o tempo e através das subjetividades que a apreciam. A arte é um  fenômeno socialmente vivo.

Talvez seja difícil e bastante pretensioso tomar a Bíblia e tentar enquadrá-la nestes padrões afim de chamá-la de artefato artístico, no entanto, acredito que vale o esforço e por isso me atrevo a escrever sobre isso, pois ao colocar a Bíblia não só como o livro da revelação (como se isso fosse pouco) ou um livro de sabedoria, mas também como produto de arte, acredito que a relação entre o cristão e as mais diversas manifestações da arte possa ser de algum modo menos confusa.

Assim, a pergunta que podemos nos fazer é: A Bíblia é uma obra artística? Ela é um sistema de sinais-símbolos? Minha humilde resposta para tal pergunta é SIM. Vejamos por quais razões:

a) A Bíblia como meio de Expressão 

O primeiro ponto que se deve ter em mente é que para além de um manual de ensinamentos, a Bíblia é um recorte de subjetividades que experimentaram Deus e foram inspiradas por seu Espírito. A Bíblia é constituída pela história da salvação e pela revelação do ser de Deus, nas entrelinhas, estes elementos apontam para uma característica comum entre a arte a Bíblia: a capacidade de ambas de lidar com aquilo que a racionalidade não pode lidar de maneira satisfatória, a irracionalidade, tanto das sensações, sentimentos, quanto do que é transcendente. No caso da Bíblia isso fica muito claro no uso poético do antropomorfismo para fazer entendível o ser de Deus ( Nm. 6.24/ Êxodo 20.5/ Salmos 34.15)

b) A Bíblia detém uma coerência interna e multidimensional

O segundo ponto no qual podemos nos ancorar para dizer que Bíblia possui características de um artefato artístico é sua coerência interna, primeiramente isto se encontra na costura lógico-teológica que nela podemos perceber, ou seja, apesar de ser um compilado de livros escritos por diversos autores humanos em diferentes épocas e que sofreram diversas influências culturais, encontramos em suas páginas a noção de obra única que se encaixa a partir de um único espírito criativo, em outras palavras, as aparentes contradições existentes não ferem a lógica interna da obra. Além disso, em termos formais, gramaticais e literários a Bíblia também inova estabelecendo novos padrões literários- os evangelhos são um exemplo disso, até sua escrita não existia nada igual ao que foi feito- e ressignificando padrões estilísticos antigos como a poesia e a literatura de sabedoria, adequando-os aquilo que se desejava expressar.

c) A Bíblia é ambígua no sentido de produzir sobre seu leitor diversas sensações

Por fim, a Bíblia como artefato artístico é dotada de ambiguidade, é fato que como palavra de Deus ela o revela e nunca volta vazia em relação a alma daquele que se propõe a lê-la, no entanto além deste significado teológico, a Palavra de Deus pode despertar em seus apreciadores sensações que às vezes possam parecer conflituosas, em síntese as palavras da Bíblia causam impactos bem particulares naqueles que leem, tanto na esfera do religioso - uma rápida reflexão sobre quanto já se produziu de teologia revela isso, quando na esfera secular. Como obra artística ela impacta a experiência daquele que usufrui dela de tal maneira que toma um significado para este, seja um significado religioso ou não e é por isso que as (re) leituras de passagens parecem ser tão distintas, é o caso, por exemplo,  dos mais recentes de filmes baseados em histórias bíblicas ou da própria estética das pinturas e esculturas de cunho religioso, que mudam com o tempo, tais produtos nada mais são de que a expressão de  uma maneira distinta de observar artefato artístico que é a Bíblia.


Concluindo

O entendimento da Bíblia como um artefato artístico é um bom começo para que cristão pare e repense sobre como ele lida com a arte no decorrer de sua vida. Infelizmente, no contexto brasileiro, a arte é frequentemente demonizada, no entanto isto é correto? Se pensarmos que a própria revelação foi transcrita em padrões artísticos e que por isso pode ser chamado de artefato artístico, será que não deveríamos começar a estabelecer uma visão mais trabalhada sobre a arte no geral? Se a própria arte está em diálogo com a verdade, porque aqueles que afirmam ser seguidores da verdade não podem estabelecer um diálogo mais profundo com as manifestações artísticas independente de propriedades religiosas inerentes a ela ou não? São questões que merecem reflexão.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Palestra Por uma Fé Integral (vídeo)

Olá, paz e graça a todos! Hoje, trago para vocês a palestra do nosso primeiro encontro que teve como tema "Ação Social e Fé Cristã: Desafios de um Cristianismo Político". Espero que vocês gostem e se puderem compartilhar em suas redes sociais, agradeço.




terça-feira, 2 de setembro de 2014

Igreja: Agente da Esperança





E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos.E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum.E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister.E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração,
Atos 2:42-46

Em posts anteriores, tratamos dos desafios de uma fé integral em ação e das dimensões que esta fé detém. Aqui, falaremos um pouco sobre a agência responsável pelo exercício da fé, a igreja militante. Mas, cabe a pergunta, militante de quê?

O primeiro ponto a ser dito é que uma fé integral - base de um cristianismo político, ou seja, voltado a vida, a comunidade, as relações inter e intra coletividade de fé- é o ingrediente que move a igreja militante, o corpo de Cristo e que portanto a impulsiona para o futuro, pois ter fé é saber que se vive e se espera aquilo que ainda não pode ser visto por completo, desse modo, posso dizer: militamos pela esperança.

Afirmar que nossa bandeira é a esperança é declarar que somos partes de um Reino que já está presente e que devemos anunciar, anelando sua plenitude. Isso significa que não vivemos egoisticamente, mas nossa existência regenerada respira a verdade do senhorio do ressuscitado, que do futuro está vindo para estabelecer plena vida, justiça e misericórdia no bater do martelo da história.

Nosso comportamento só deve ter sentido se dentro do horizonte desta perspectiva escatológica. O fim dos tempos é premissa de nossa reflexão e através dele ganha sentido nossa luta, nossa compreensão. Vivemos por uma promessa, que nos chama para frente, mas não só isso, como também para fora de nossas paredes.

A Igreja é a comunidade de vanguarda do Reino de Deus, guiada pelo sopro do Espírito põe todas as suas faculdades em prol da repercussão multidimensional de uma mensagem, a salvação e o perdão dos pecados. A igreja é enviada, assim como Cristo foi enviado do Pai, para ser humana e santa, tendo a partir disto a possibilidade de ensinar, curar, libertar e proclamar, através da desalienação das consciências e vivificação das vidas desperdiçadas de tantos oprimidos que sofrem nos mais diversos grilhões em um cultivo satânico do desespero.

É papel da igreja portanto fomentar solidariedade, como bem nos fala atos, e isso pressupõe comunhão cristã em todos os seus âmbitos ( teocêntrico, cristocêntrica, pneumocêntrica bibliocêntrica, diacônica, social e cotidiana). A igreja como corpo do Cristo não faz acepção de pessoas, nem de parte dessas pessoas, antes propicia a elas um ambiente de transformação tornando possível a declaração: O Evangelho Todo, para o homem todo e todo homem”

A igreja então integra em seu ofício a proclamação do Evangelho do Reino, o Batismo, o Ensino e a integração em uma comunidade de fé, o despertamento dos fiéis a respostas de misericórdia as necessidades e a denúncia das estruturas iníquas da sociedade. Isso nos permite afirmar que a igreja tem como finalidade o mundo.

A igreja expressa sua natureza do corpo de Cristo quando é obediente no mundo e isso significa exercer um serviço concreto de missão. Uma igreja só é comunidade de Deus quando é comunidade para o mundo. O cristianismo deve servir ao mundo como um memorial da intervenção divina na história, deve servi-lo para que se transforme e se aproxime do seu Criador, para que assim se acrescente aqueles que serão salvos.

A igreja para o mundo é a igreja embaixadora do reino de Deus e isso se dá quando a comunidade dos santos acolhe a sociedade em seu horizonte de esperança, da realização plena de justiça, vida, humanidade, e sociabilidade, tudo isso dentro dos seus ofícios sacros.

A missão da igreja é contagiar os desesperados do mundo com a esperança, não aquela pregada em tantos meios, que é revestida de um futuro estático, ou seja, do amanhã como remédio do pessimismo atual, mas sim com a esperança que é esperançar, que comove e ferve a alma impelindo-a ao agir, porque a palavra é viva e ativa, libertadora e transformadora.

Somente um cristianismo pobre de seu conteúdo central pode se identificar com discursos proferidos por uma estrutura de desejos imersos na sociedade que oferecem como papel da religiosidade cristã o reacionarismo fundamentalista, o afrouxamento do liberalismo teológico ou/e os desvios mercadológicos, opressivos, apáticos, idólatras e sincréticos de uma fé cada vez mais midiática.

Um cristianismo verdadeiro é inconformado e renova-se no entendimento, abre-se para o trabalho da reconciliação- iniciada e consumada na cruz, aplicada no presente pelo Espírito Santo- do mundo com Deus, trazendo ao presente o futuro e não esperando no presente por ele. As esferas de atuação na sociedade, sejam quais forem, são os meios pelos quais devemos exteriorizar o Reino de Deus, nos fundamentos de uma ética que torne nossa convivência mais justa, mais humana, mais pacífica, reconhecendo mutuamente a dignidade e liberdade de todos sem exceção de direitos em nome de minorias ou maiorias opressoras.


A igreja e sua missão devem ser integrais, o que significa dizer perseverança na adoração, reflexão e ação, sem desvios ao misticismo alienante, ao pedantismo acadêmico ou ativismo sem sentido escatológico e evangelical. Concluímos portanto que a missão e a espiritualidade sadia da igreja de Cristo se constrói de maneira encarnada, concreta, participante, levando em consideração o conhecimento da palavra de Deus, do contexto, do discernimento, da intercessão e da intervenção na História, com uma mensagem ampla, que atinge a multidimensionalidade da criação, sendo ao mesmo tempo pública, política e pessoal.

Referências

CAVALCANTI, Robinson. Igreja Evangélica – identidade, unidade e serviço. Visçosa: Ultimato, 2013
MOLTMANN, Jurgen. Teologia da Esperança: estudo sobre os fundamentos e as consequências de uma escatologia cristã. São Paulo: Editora Teológica: Edições Loyola, 2005

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Fé Cristã e suas Dimensões: Evangelismo, Comunitarismo e Assistencialismo





 Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade. 1 João 3.17


No primeiro post sobre o nosso encontro (saiba mais AQUI) tentei esboçar um pouco os desafios e o princípio da significância da fé ativa, da verdadeira fé cristã. Hoje, precisamos refletir em que dimensões o viver para o outro se manifesta na igreja e como se dá perfeitamente esta conjugação.

É necessário dizer que uma fé cristã engajada em ação social não se limita a apenas uma dimensão do labor cristão, mas se porta como uma confluência de atos, gestos e ditos, que agregam sob o sangue de Cristo a totalidade das pessoas remidas, desfrutantes de uma santificação processual, abrangente e aglutinadora.

Portanto, todo o pensar e trabalhar cristão deve ter em mente três esferas: (a) evangélica; (b) comunitária e (c) assistencial, uma fé cristã para ser de fato cristã deve ser integral, completa. É o que nos deixa claro o verso da 1 carta de João em destaque e a afirmação de Tiago em sua carta ao dizer Tu crês que há só um Deus? Fazes bem; também os demônios o creem e estremecem. ( tiago 2.19), a fé de um cristão não pode levá-lo apenas ao estado subjetivo de crente, pois isso não é fé, ela nos leva a um estado de consciência que vai além da palavra e de nossa língua, abrange nossos atos e torna nossa existência pautada na Verdade.

A fé cristã nos leva para além do individualismo doentio, do egoísmo e aqui encontramos a primeira dimensão, deveras a essencial. Ao sermos alcançados pela graça somos chamados a entregar o presente a outros, temos o mapa que leva ao Reino, somos embaixadores do paraíso, vocacionados a chamar outros à habitar uma cidade de bem aventuranças eternas. Aqui se inscreve o princípio do objetivo máximo do cristianismo: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura (Marcos 16.15).

Contudo, a dimensão evangélica da fé, se coerente com aquela apresentada na Bíblia, produz o chamado à comunidade e esta não é a homogenização das idiossincrasias, mas sua valorização mediante a conjugação do “eu” em “nós” na inserção do fiel no corpo de Cristo, ou seja, é o viver realmente, de maneira autêntica, em uma participação totalizante que define o ajuntamento comunitário. Somos diferentes, Deus sabe disso, mas precisamos um dos outros, a homogenização expressa por uma fé vivida na falsa imagem do “socialmente” é o coletivismo doentio que nos isola na solidão paradoxal da multidão solitária, mas a valorização da diferença e de sua necessidade na comunidade nos chama a solidariedade e ao serviço, como afirma o apóstolo: Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? Mas, agora, Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis. E se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Agora, pois, há muitos membros, mas um corpo. E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não tenho necessidade de vós. 1 Coríntios 12. 16-21

Porém, a integralidade da fé não se resume aos seus âmbitos evangélico e comunitário, se isso ocorre, gera-se isolacionismo e apatia ante as dificuldades do mundo e consequentemente das pessoas. Existe uma terceira dimensão, aquela que assiste o outro, o não participante da comunidade de fé, a voz profética que clama contra a iniquidade estrutural do mundo, que não apenas ameaça a comunidade dos santos, mas também os que ainda não foram atingidos pela mensagem da graça. E isto não é um peso, muito menos um modo pelo qual alcançar a salvação, mas um produto, uma nova disposição ao amar e ao suportar o outro, verdadeiramente o exercício da solidariedade, como está escrito: Meus irmãos, não vos maravilheis, se o mundo vos aborrece. Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; quem não ama a seu irmão permanece na morte. Qualquer que aborrece a seu irmão é homicida. E vós sabeis que nenhum homicida tem permanente nele a vida eterna. Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. 

Bibliografia

ÁLVARO, Daniel. Los conceptos de “comunidad” y “sociedad” de Ferdinand Tönnies. Papeles del Ceic, Buenos Aires, v. 1, n. 52, p.2-22, mar. 2010. Disponível em: <http://www.identidadcolectiva.es/pdf/52.pdf>. Acesso em: 19 ago. 2014.

LEWIS, C.s.. O Peso da Glória. São Paulo: Vida Nova, 1993.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Uma Fé em Ação





Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: "Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso?  Tiago 2:15-16
Estamos nos preparando para o 1º Encontro Refletindo a Graça que terá como tema "Fé Cristã & Ação Social- Desafios de um Cristianismo Político" e a partir de hoje, eu, Álvaro Botelho, estarei publicando algumas reflexões que tenham como cerne da questão, o tema do nosso encontro. 

Neste post, quero abordar a fé como força ativa sobre o mundo, fé que neste contexto significa ação, como bem coloca o versículo destacado. Fé em ação, portanto, é o princípio do que pode-se chamar de um cristianismo político e também o seu grande desafio.

Princípio porque é a partir da fé ativa que se encontra a caridade, a santidade interventiva, capaz de vestir, aquecer e alimentar, enfim, satisfazer o outro. Como habitantes de um reino que já está presente, mas que será aperfeiçoado, temos como pauta da vida convertida o santificar o mundo e a partir disso, permitir ao Espírito Santo remir aqueles que vierem até Ele com fé.

A fé ativa também é desafio porque põe no fogo nossos corações e em xeque nossa conversão, uma fé morta é expressa por um dito sem gesto, por uma oração sem ação, uma fé morta é descrita por Tiago nos versículos trazidos como algo ineficaz, por isso, a passagem acaba com a expressão “ de que adianta isso?”

O próprio Cristo nos revela, não somos do mundo, porém não devemos sair dele, devemos antes ser livrados do mal, sermos santificados na verdade que é a Palavra e assim por Cristo sermos enviados ao mundo, para fazer a vontade divina e revelar o Deus que nos amou em unidade e comunhão. ( João 17. 15-26)

O desafio está lançado, ao que sente ardor por Cristo no peito resta a negação do próprio Eu, do egoísmo do mundo, pois não devemos nos conformar com esta era ( Romanos 12. 2). E não se conformar com esta era é viver o reino que já está em nós é entender que a justificação pela fé, como dizia Lutero, liberta-nos para amar o próximo, para sermos de Cristo uns para os outros, para nos consumirmos em favor dos outros, como também Cristo nos amou e deu a si mesmo por nós. 
Referências
  AQUINO, Rodrigo Bibo de et al. Jesus Cristo. In: AQUINO, Rodrigo Bibo de et al. Mosaico Teológico: Esboço de Doutrinas Cristãs. Joinville: Btbooks, 2013. p. 31-52.

CAVALCANTI, Robinson. Cristianismo, secularismo e cidadania. 2011. Disponível em: <http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/330/cristianismo-secularismo-e-cidadania/robinson+cavalcanti>. Acesso em: 08 ago. 2014

 CAVALCANTI, Robinson. A mui santa participação política. 2008. Disponível em: <http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/313/a-mui-santa-participacao-politica/robinson+cavalcanti>. Acesso em: 08 ago. 2014